"Curveball" assumiu que mentiu sobre armas biológicas de Saddam

Powell quer explicações da CIA e do Pentágono sobre fonte chave para a guerra no Iraque

Colin Powell defendeu a guerra no Iraque com base em infromações falsas
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Colin Powell defendeu a guerra no Iraque com base em infromações falsas Kevin Lamarque/ REUTERS

A 5 de Fevereiro de 2003, o então chefe da diplomacia norte-americana, Colin Powell, foi às Nações Unidas apresentar as razões que, no entender da Administração Bush, justificavam uma guerra contra o Iraque: dados dos serviços secretos provavam que Saddam Hussein estava a desenvolver um programa de armas biológicas. Agora, Powell exige explicações da CIA e do Pentágono por lhe terem dado informações erradas, transmitidas por um desertor apelidado de “Curveball”.

As agências de informação americanas tinham o dever de ter feito “soar o alarme” quanto à credibilidade do desertor, cujo verdadeiro nome é Rafid Ahmed Alwan al-Janabi, acusa Powell numa entrevista publicada hoje pelo "Guardian".

“A questão tinha de ser apresentada pela CIA e o DIA [departamento de informações da Defesa] antes que esta falsa informação figurasse no relatório dirigido ao Congresso, citado no discurso do estado da União [feito pelo Presidente George W. Bush] e na minha intervenção na ONU a 5 de Fevereiro” – que se tornou no discurso da carreira de Powell.

Um mês antes de os EUA avançarem para a guerra, Powell assegurou aos membros da ONU que existiam “descrições em primeira mão de fábricas de armas biológicas… A fonte é uma testemunha que vigiou uma dessas instalações”.

Na quarta-feira, o diário britânico deu a conhecer declarações em que “Curveball” admitia pela primeira vez ter mentido quanto à existência de armas no Iraque. Janabi, engenheiro químico, terá pretendido com isso ajudar a derrubar Saddam Hussein.

A admissão não terá surpreendido muitos responsáveis americanos. “Sabia-se há vários anos que a fonte chamada ‘Curveball’ não era de todo fiável”, adiantou Powell.

A principal fonte dos EUA na justificação para avançar para a invasão do Iraque, em Março de 2003, não recebera a confiança dos serviços secretos alemães (BND), quando o abordaram três anos antes. Powell exige agora saber porque não lhe foi dito que havia reservas quanto à credibilidade daquele depoimento.

Seria o então chefe da CIA, George Tenet, quem lhe deveria ter comunicado que os BND não acreditaram em “Curveball” quando o ouviram, adianta o jornal. O então ministro alemão dos Negócios Estrangeiros, Joschka Fischer, garantiu ontem que os BND passaram o depoimento do desertor à CIA com várias recomendações de que “‘Curveball’ pode estar certo, mas também pode não estar. Ele pode ser um mentiroso, mas também pode estar a dizer a verdade”.

A declaração desmente o próprio Tenet, que na quarta-feira emitiu um comunicado a dizer que só “demasiado tarde” (“too damm late”) a CIA tomou conhecimento de que as informações tinham sido fabricadas. O director da agência de informação argumentou que apenas em 2005, dois anos depois da invasão, descobriu que os BND tinham dúvidas sobre as denúncias de “Curveball”.

Questionado pelo "Guardian" se seria possível que Tenet não estivesse a par na altura, Fischer foi claro: “Não, não acho”. E adiantou que o então chefe dos BND, August Henning, escrevera uma carta à CIA sobre os problemas que “Curveball” poderia colocar.

O ex-ministro referiu ainda que a Alemanha ficou numa “posição muito difícil” quando a CIA perguntou se podiam usar o depoimento de “Curveball” para justificar a invasão do Iraque. A posição alemã, escreve o jornal, foi dizer que não se juntaria a uma coligação, e a justificação dada então por Fischer ao chefe da Defesa norte-americana, Donald Rumsfeld, ficou famosa: “Não estou convencido” dos argumentos para uma guerra.

“Por um lado, não queríamos esconder dos EUA nenhum pedaço de informação relevante que tivéssemos sobre armas de destruição maciça. Por outro, não queríamos participar na exploração propagandística do material, que estava longe de justificar uma guerra”, escreveu o ex-ministro na sua nova autobiografia intitulada “Não Estou Convencido”.

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