Instituto da Segurança Social quer apostar no acompanhamento à distância de idosos

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Há cerca de 390 mil idosos sós PAULO RICCA

Só ontem foram relatados mais dois casos de idosos que morreram em situação de isolamento - um foi em Faro, o outro em Ourém

A maioria dos alarmes accionados pelas cerca de duas mil pessoas abrangidas pelo serviço de teleassistência da Cruz Vermelha Portuguesa (CVP) tem uma única causa: solidão. São idosos isolados, sentem-se sós e carregam naquele botão vermelho, que muitas vezes trazem numa pulseira, não porque haja uma verdadeira situação de alarme, mas porque querem conversar com um dos operadores do call center, diz Ana Margarida Soares, responsável pelo serviço. É este tipo de apoio à distância - e há várias experiências no país - que a Segurança Social tem vindo a estudar.

Ontem, aos microfones da TSF, Edmundo Martinho, presidente do Instituto de Segurança Social, disse que, nos próximos dois meses, entregará ao Governo uma proposta que tem um objectivo: "A Segurança Social ser parte de um processo que permita às pessoas aderir facilmente e com custos reduzidos a uma solução de acompanhamento [à distância]."

Algo que, disse, deverá ser feito "em conjunto com as misericórdias e instituições de solidariedade e com quem tem esta capacidade tecnológica para oferecer". A promessa surge numa altura em que se debate como foi possível que uma idosa tenha estado morta, no seu apartamento, em Rio de Mouro, durante nove anos; foi encontrada na semana passada. Desde então, outros casos de idosos que morrem sem que ninguém dê conta têm sido relatados: um homem de 67 anos, que vivia sozinho em Ourém, foi ontem encontrado em casa - terá morrido 8 dias antes. Também ontem, outro caso em Faro de um homem de 67 anos encontrado morto ao fim de dois dias após alerta do senhorio. Sábado, na Amadora, tinha sido um homem que morrera dez dias antes.

Contactado pelo PÚBLICO, o gabinete de imprensa do Ministério do Trabalho e da Solidariedade Social limitou-se a dizer que "avaliará experiências-piloto" de apoio à distância, utilizando diferentes suportes tecnológicos, sendo certo que a percepção que existe é a de que muitas, no passado, não resultaram.

Ana Margarida Soares, que gere a teleassistência da CVP, um serviço com vários anos, admite que este podia chegar a mais pessoas - tanto mais que tem protocolos assinados com vários municípios e instituições de todo o país que se dispõem a apoiar os mais carenciados (a instalação do equipamento custa 70 euros e a mensalidade varia entre os 20 e os 26 euros). "A principal razão para os idosos não aderirem é a dificuldade que têm em assumir que estão sós e precisam de ajuda", diz. O valor que, mesmo com a comparticipação, alguns têm de pagar também pode ser desmotivador.

Horas à conversa

Como é que funciona este serviço? Em cada casa é colocado um terminal fixo, para além de um pendente, que pode ser usado em forma de pulseira ou de colar, que funcionam em alta-voz. Ambos têm um botão vermelho que mal é pressionado faz soar o alerta no call center da CVP. Em caso de alarme, o operador acciona os meios mais adequados (pode chamar o 112, a polícia, um voluntário da CVP ou um vizinho). Mas muitas vezes tudo se resolve com conversa. "Chegam a estar duas horas ao telefone com os utentes." Pelo menos uma vez por semana, cada utente é contactado.

Em Portugal há cerca de 390 mil idosos sós, lembra José Maia, responsável pelo projecto Movimento Comunidades de Vizinhança, que visa combater o isolamento de quem vive só no Porto. Ao padre faz confusão que "as máquinas substituam as pessoas". Por isso, preferia ver o Governo apostar noutro tipo de medidas. Por exemplo: "Muitos dos que recebem o rendimento social de inserção podiam ser encaminhados para prestar apoio e companhia a idosos." Todos tinham a ganhar, garante.

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