Rua do Pêgo Negro, o Porto no seu pior

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Rui Sá vai insistir na criação da freguesia Azevedo de Campanhã FERNANDO VELUDO/NFACTOS

"Se houvesse aqui petróleo, o Rui Rio já cá estava", dizia ontem, à laia de lamento, um morador da Rua do Pêgo Negro, em Campanhã. Não havendo petróleo nem Rui Rio, o vereador da CDU na Câmara Municipal do Porto, Rui Sá, voltou a visitar zona mais oriental e esquecida da cidade, para recordar que, embora não pareça, aquilo também faz parte do Porto. Quer, por isso, que o presidente da câmara saia do gabinete - não para levar "uma fueirada", conforme prometia o mesmo morador, mas para ganhar consciência do abandono e da incúria que ali reinam.

A Rua do Pêgo Negro é, com efeito, uma coisa que merece ser vista: arranca na Rua das Areias, corre entre monturos, é interrompida pela moderna Alameda de Azevedo, contorna o Parque Oriental, afunda-se no vale do rio Tinto e desaparece da cidade. Serpenteia entre paredes estreitas, parece que termina, faz um gancho apertado, passa sobre o rio transformado numa torrente suja com margens de lixo e sobe até à Circunvalação.

Há casebres e contentores de lixo tombados e arrastados pelo vento. Há caminhos de lama e vielas estreitas. Há colchões esquecidos em cima de um resto de vinhas. Há lixeiras sem lei. Há uma jaula insolitamente vermelha, pintada de novo, com as palavras "Teddy Bear/Gentil Germinal" e um cão que ladra ferozmente.

Bem-vindos, pois, ao esquecido Pêgo Negro. Rui Sá apresenta-se, bate às portas e vai escutando o rol de reclamações. Velhas casas rurais que foram divididas em lares sem condições mínimas, "autênticos aidos", e que são alugadas por 300 euros a gente sem alternativas - e os senhorios nem sequer fazem obras. Uma ETAR em Gondomar, ali ao lado, que faz descargas de um líquido com um cheiro nauseabundo e transforma o Tinto "num depósito de sujidade". A falta de iluminação pública. O isolamento de quem, com a construção da A29, ficou a viver esquecido "entre duas pontes". Uma pequena ponte que a torrente levou, eliminando o caminho mais curto para a escola. "O táxi até tem medo de vir aqui", diz a moradora de uma casa quase sob o viaduto da A29.

Recordando que o projecto do Parque Oriental previa a requalificação daqueles núcleos habitacionais, Rui Sá considera que aquela parte da cidade "não tem merecido a atenção" da autarquia, desde logo porque "muitas pessoas pensam que isto já nem sequer faz parte do Porto" e porque "a Junta de Campanhã não tem tido capacidade reivindicativa para colocar estes locais no mapa". Sá lembra que a CDU defende a criação de uma nova freguesia a nascente da Circunvalação, Azevedo de Campanhã, e promete voltar a levar o assunto às reuniões do executivo municipal.

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