Mais dois idosos encontrados mortos em casa depois de alerta de vizinhos

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O ideal é que os idosos se "mantenham no seu ambiente, desde que acompanhados por estruturas de apoio" ADRIANO MIRANDA

Homem de 71 anos teria luz cortada há cerca de três meses por falta de pagamento. Bombeiros que recolheram o corpo dizem que estas situações "acontecem com alguma frequência"

Mais dois idosos mortos nas casas onde viviam sozinhos foram descobertos, dias depois de terem falecido. O alerta foi dado pelos vizinhos. Na semana passada, foi conhecido o caso de uma mulher que estava morta no seu apartamento há nove anos. A autora de um estudo sobre envelhecimento na população portuguesa lembra que quase 40 por cento dos idosos passam mais de oito horas por dia sós.

São pessoas que têm "vizinhos que notam que a pessoa não aparece com as compras, que não tem a luz acesa. Há alguém do seu ambiente com uma preocupação mínima, mas estas são pessoas que estão sós, intimamente sós", afirma Catarina Oliveira, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, e uma das autoras do estudo sobre o perfil do envelhecimento da população portuguesa.

Na terça-feira, foi encontrado o corpo de Augusta Martinho, uma idosa que faria este mês 96 anos e que não era vista desde 2002. Nove anos depois, o corpo foi descoberto por acaso no seu apartamento na Rinchoa (concelho de Sintra), apenas porque tinha sido comprado por uma nova proprietária, depois de posto à venda num leilão das Finanças por ter sido penhorado.

Na sexta-feira, foi a vez de um reformado do Exército, de 71 anos, ter sido encontrado sem vida na casa onde vivia só, na aldeia de Balsas, no concelho de Cantanhede. Um vizinho comunicou à GNR que não o via "há três semanas" mas a luz tinha sido cortada há dois ou três meses por falta de pagamento, porque já estaria morto, disse uma vizinha ao Jornal de Notícias. O homem terá tido uma mulher e uma filha que não o visitariam há anos.

No sábado, foi também encontrado sem vida um homem de 80 anos. Estava em sua casa, em São Mamede de Infesta (concelho de Matosinhos), tendo sido o alerta dado por um vizinho que já "não o avistava há alguns dias", disse ontem à Lusa fonte da PSP/Porto. O conhecido afirmou ignorar a existência de parentes da vítima, tendo sido a casa e os bens entregues à senhoria.

Carlos Teixeira, comandante dos Bombeiros Voluntários de Ermesinde - corporação que foi chamada a recolher o corpo - afirmou à Lusa que situações como esta "acontecem com alguma frequência".

Tristes e deprimidos

Catarina Oliveira lembra que a grande conclusão da investigação, que apenas estudou idosos ainda autónomos e a viver a sua casa, é a "que estão tristes e sós": são 36,5 por cento os idosos portugueses com mais de 65 anos que passam mais de oito horas do seu dia sem companhia e 28,9 por cento os que admitem estar "tristes e deprimidos", "metade do tempo" ou "muito tempo".

A investigadora diz que o facto de estes idosos terem sido encontrados mortos em casa não deve afastar do essencial: o ideal é que se "mantenham no seu ambiente, desde que acompanhados por estruturas de apoio que lhes permitam ter uma ocupação durante o dia". A institucionalização não é uma boa solução, diz, porque "as pessoas perdem as suas raizes". Para a médica também não basta apontar o dedo às famílias que até podem viver por perto mas que "estão longe do ponto de vista afectivo". "Têm que ser criadas condições para que a família possa dar mais apoio", defende.

Para o coordenador do Instituto do Envelhecimento da Universidade de Lisboa, Villaverde Cabral, estes casos demonstram a "urgência" de uma intervenção face ao processo de envelhecimento demográfico português. "É pena que tenha de haver casos trágicos como este para que a opinião pública tome consciência do problema cada vez mais frequente do isolamento em que vive uma grande parte dos idosos", disse à Lusa Manuel Villaverde Cabral, lembrando que Portugal é "um dos países mais envelhecidos do mundo".