A censura contra a irresponsabilidade

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O povo decidirá o que é lamentável: se a governação que destrói este país, se erguer-se para salvar a decência

Perante a moção de censura anunciada pelo Bloco de Esquerda, José Sócrates virou-se imediatamente para os seus parceiros do Orçamento a exigir fidelidade. Obteve-a no mesmo instante, e este é um primeiro e notável resultado clarificador. Os dirigentes do PSD precipitaram-se, um atrás do outro, a garantir que tudo deve continuar na mesma. Os portugueses ficaram assim a saber que a crise que afoga o país tem o rosto de uma maioria amplíssima: PS e PSD dão as mãos na economia cruel que determina a vida das pessoas. Esta coligação salva os dividendos milionários de serem tributados e protege grandes bancos que não pagam imposto, ao mesmo tempo que prossegue o mais radical ataque contra os mais fracos. Esta coligação rejubila diante dos diktats de Merkel, na expectativa manhosa de impor a reforma aos 67 anos por via de pressões alemães e evitando o embaraço de alguém se lembrar das promessas eleitorais. É mesmo de uma aliança que se trata. Traiçoeira, calculista, a prazo, mas uma aliança.

Curiosa e reveladora foi, então, a pulsão de quem pediu simultaneamente ao Bloco que não censurasse o Governo porque não convinha ao PSD e que, se o fizesse, abdicasse da sua responsabilidade de uma alternativa, para assim facilitar a vida à direita que, aliás, demonstrou imediatamente que não queria nada disso e se ficava pelo apoio ao Governo na degradação da condição dos trabalhadores. Ora, a esquerda é inteira ou não é, pois não existe outra forma de apresentar uma alternativa senão convocando respostas essenciais.

Por isso, esta moção tem uma razão, a defesa das gerações sacrificadas. Dois milhões de trabalhadores estão a ser expulsos cá dentro. São os desempregados sem subsídio e sem futuro. E são os jovens a falso recibo verde, no call center, no trabalho temporário, a geração mais qualificada de sempre, quem sofre o embate da economia parva em que para ser escravo é preciso estudar. Esta marginalização da sociedade, que não reconhece o direito à vida destes milhões de jovens e desempregados, tem uma enorme consequência para o futuro. Destrói o país. Reduz a democracia a uma encenação.

A urgência de uma resposta é esta: ou a esquerda responde pelas vítimas da crise ou permite a crise. Uma clarificação dos destinos do país é, portanto, necessária. Eu sei que Sócrates, mestre malabarista, agora brada contra o liberalismo extremista de Passos Coelho, e garante que se constitui em "muralha de aço" contra a direita. Mas entendamo-nos, a realidade é esclarecedora desta fábula heróica. Foi mesmo juntos que impuseram o corte dos salários e apoios sociais mínimos, do subsídio de desemprego ou até a desumanidade do pagamento do transporte em ambulâncias pelos doentes. Bem pode José Sócrates acusar o PSD de ser hiperprivatizador, mas foi o seu ministro das Finanças quem se vangloriou de ser o campeão das privatizações. E é verdade. Estamos perante o mais vasto plano de destruição do bem público jamais concebido em Portugal, e que inclui a distribuição de hospitais pelo grupo Mello e Espírito Santo.

A esquerda que faz da defesa efectiva dos direitos sociais, dos serviços públicos e de uma Europa social a sua razão de ser não pode ser equívoca diante do apodrecimento político. Tem que impor clareza nas escolhas. Em nome das gerações sacrificadas no altar da economia cruel, o Bloco de Esquerda censura o Governo que multiplica o desemprego, desumaniza a sociedade, suspeita dos pobres e branqueia os negócios dos poderosos.

Claro que José Sócrates, como João Jardim ou o presidente da CIP, se aprestou a dizer que esta é uma moção lamentável. Sugiro-lhes alguma prudência. O povo decidirá o que é lamentável: se a governação que destrói este país em pobreza e desespero, se erguer-se para salvar a decência. Porque decência elementar é romper o silêncio cúmplice diante de uma governação que, a cada dia que passa, rouba mais horizontes a novos e a velhos.

É em nome da luta por um governo de esquerda que se concentre na criação de emprego, na justiça fiscal, no fim da precariedade, na correcção do défice orçamental e social, que esta moção vem quebrar medos. Líder do Bloco de Esquerda