Entrevista

Moniz Pereira ameaça sair de sócio do Sporting se o clube se virar só para o futebol

Moniz Pereira é o sócio número dois do Sporting
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Moniz Pereira é o sócio número dois do Sporting Enric Vives-Rubio (Arquivo)

O sócio número dois do Sporting, Mário Moniz Pereira, promete “rasgar o cartão” se alguma vez o clube se virar apenas para o futebol e deixar o ecletismo que o caraterizou durante mais de um século.

Em entrevista à Agência Lusa, na véspera de completar “quatro vezes vinte mais dez” anos, como gosta de dizer, “evitando” os 90 anos do Bilhete de Identidade, aquele que foi chamado de “senhor atletismo” e “fabricou” vários medalhados olímpicos e mundiais distancia-se cada vez mais do futebol.

Vice-presidente do Sporting já com cinco presidências, desde Pedro Santana Lopes, admite que a crise é comum, pelo que o clube a ela não escapa. “Em Portugal exagera-se demasiado o gosto pelo futebol, com os ordenados iguais aos de Inglaterra ou Espanha. Todos os clubes estarão em crise financeira, se continuam a pagar aquilo que pagam”, explica.

De alguns dirigentes da nova geração tem uma visão crítica, por estarem distanciados do lado desportivo do clube: “Se alguém conhece o Sporting, sou eu, e pouca gente mais. Muitos que lá estão a trabalhar sabem muito de contas, de bancos, de contratos, mas de desporto não”.

“O futebol sempre foi uma das modalidades mais importantes, mas não pode ser só o futebol. Um milhão para o futebol não é nada e para o atletismo não há 100 mil euros, mesmo que sejamos campeões da Europa”, desabafa.

Para as eleições de março, mantém-se na expetativa -- não está claro que apoie alguém, nem que volte a ser vice-presidente. “Se aparecer uma pessoa que diz ‘eu só quero o futebol aqui’, eu peço a demissão de sócio logo, isso não é comigo”, adverte.

Os candidatos, ou possíveis candidatos, grande parte não os conhece, ou não sabe quais as ideias com que avançam. “Alguns nem sei quem são, podem passar por mim que não sei quem são, outros, conheço, mas tenho de saber qual é o projeto”, explica.

No seu coração permanece, sempre, o atletismo, que lhe tem marcado a vida nos últimos 66 anos, permanentemente no Sporting, procurando logo de início a máxima consagração - o ouro olímpico.

Uma meta que assumiu desde cedo, sem hesitações: “O meu objetivo é um dia ter um atleta treinado por mim que vá aos Jogos Olímpicos e ganhe a medalha de ouro”, respondeu a quem lhe fez a pergunta, quando acabou o curso de professor de educação física, em 1945.

“Ao fim de 39 anos de trabalho e de treino consegui mesmo que um atleta treinado por mim, o Carlos Lopes, conseguisse a medalha de ouro da maratona (1984)”, recorda.

Sem dúvida, o ponto mais alto de uma carreira de 66 anos de ligação ao atletismo do Sporting.

Mas não é só de Lopes que vivem as suas recordações. Também de Fernando Mamede e dos gémeos Castro, nomeadamente. “Gostei de trabalhar com muitos atletas, que se entregaram ao rigor das minhas regras de treino. Dei sempre o exemplo e nunca pedi para fazerem nada que eu não fizesse primeiro”, relembra.