Exército Vermelho Unido

Koji Wakamatsu passou parte substancial da carreira a fazer "pink films", esse peculiar género erótico do cinema japonês que, como todos os géneros, era essencialmente um "invólucro". A caixa de DVDs com cinco filmes de Wakamatsu recentemente editada deixa ver bem a quantidade de coisas que o realizador levava para dentro do "invólucro" do "pink film": uma relação (política) com o Japão que lhe era contemporâneo, uma proximidade com os movimentos contestatários mais radicais (e frequentemente violentos) dessas décadas de 60 e 70. A bem dizer, a proximidade de Wakamatsu com esses movimentos transcendeu o cinema - acreditou neles, participou, advogou a "luta armada", e meteu-se nos sarilhos correspondentes (por causa de um filme de propaganda palestiniana está ainda hoje proibido de entrar em solo americano).


Não é fundamental, mas é importante saber deste "background" a propósito de "Exército Vermelho Unido", porque a raiz do filme é eminentemente pessoal. Wakamatsu, que hoje (com 75 anos) renega a violência e acredita que a maneira correcta de tentar mudar o mundo é "pela via eleitoral" (disse-o em entrevista recente), fê-lo para acertar contas com o seu passado e com a sua geração. Pegou na história do Exército Vermelho Unido, um dos vários grupos e grupúsculos que na viragem dos anos 60 para os 70 se dedicaram a operações de "terrorismo urbano" no Japão, e um grupo que ele terá conhecido razoavelmente bem. E dissecou, com toda a frieza, os momentos capitais dessa história. "Exército Vermelho Unido" é uma espécie de falso filme épico, num movimento que vai do empolgamento ao desaparecimento e à dissolução. Começa como se fosse uma enciclopédia: com uma montagem vivíssima que alterna imagens de arquivo, reconstituições contemporâneas e legendas informativas, Wakamatsu traça uma cronologia dos movimentos de contestação japoneses, da relativamente inofensiva agitação estudantil nas universidades à formação de grupos prontos para a "luta armada" - há aqui um lado exaustivo e, digamos, "documental", que é imediatamente poderoso, e pensamos, por exemplo, nalgumas coisas do melhor Scorsese, aquela capacidade de contar uma história a duzentos a hora ("Goodfellas", "Casino") a partir duma aparentemente simples acumulação factual.

Depois, Wakamatsu isola um alvo, o Exército Vermelho Unido, e o filme transforma-se numa crudelíssima análise psicológica da mentalidade "revolucionária". Parte de um episódio real, uma reunião do grupo num "chalet" algures na província japonesa em 1972 uma reunião em que o grupo praticamente se auto-destruiu a golpes de auto-crítica e purificação ideológica, deixando para trás uma pilha de cadáveres. Wakamatsu não salva ninguém - a não ser, e mesmo que por breves instantes, as mulheres, como já acontecia nos seus "pink films" - desse teatro intimista e absurdo, visão absolutamente "des-romantizada" do "esquerdismo radical", onde o idealismo deu lugar uma burocracia fanatizada (a terminologia empregue nos diálogos é importante) e os traços de carácter do "ser japonês" (a "dificuldade em desobedecer", como Wakamatsu mencionou) aceleram a desgraçam. Mas não só isso: todos aqueles temas clássicos do cinema japonês e da cultura japonês (o sacrifício, a honra) aparecem à tona, como se o "vermelho" fosse uma mera tonalidade que vem cobrir um atavismo trágico sem verdadeiramente o alterar (e isto é, no fim de contas, o mais desesperante e o mais desesperado).

Ajustadas contas com o passado "revolucionário", Wakamatsu pensou que era injusto ficar-se pela sua geração. E passou a "O Bom Soldado", onde os alvos são a geração que fez a II Guerra.e, politicamente, o fascismo. É a história de um "herói de guerra" que depois de várias "proezas" durante a invasão da China volta a casa transformado num "homem-lagarta" ("Caterpillar" é o título inglês do filme) - apenas cabeça e tronco, os braços e as pernas ficaram algures em terra chinesa. Volta a casa para a mulher (para horror, piedade e nojo dela, tudo ao mesmo tempo), e ambos seguem o curso da II Guerra Mundial de longe, pelas notícias e comunicados radiofónicos. Ainda o "documento": as imagens e os sons de arquivo, os planos que enquadram as fotografias do Imperador Hirohito na sala do casal. E ainda uma medida de absurdo, evidentemente, na observação do fanatismo ideológico ("os Deuses da Guerra"), da parafernália militarista (as medalhas do homem-lagarta), das reverenciais submissão e obediência - em vários graus, incluindo a relação marido/mulher (a condição feminina, enfim, tema clássico e perene do cinema japonês), e o único olhar minimamente condoído é para ela, não para ele, o "herói de guerra" reduzido a uma animalidade rastejante (come, bebe, urina, tem sexo, rasteja - e é tudo). Quando se ouve pela rádio o discurso da rendição japonesa proferido pelo imperador, desfaz-se tudo o que ainda pudesse fazer sentido. Wakamatsu passa à contabilidade - o número de mortos de Hiroxima, dos bombardeamentos de Tóquio, o número de japoneses que morreram na guerra. O filme acaba assim, com números. E num par de filmes, duas gerações devastadas.