Estudo revela que confiança no Governo caiu dois terços

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"Os cidadãos esperavam mais do Governo", diz coordenador da amostra DANIEL ROCHA

Expectativas goradas levam a que portugueses mais informados confiem cada vez menos no executivo e mais nas ONG

Bastou um ano para que os portugueses mais informados perdessem dois terços da pouca confiança que tinham no Governo. A conclusão é de uma amostra feita em parceria entre a EGP - Escola de Negócios da Universidade do Porto e a empresa de comunicação GCI, a partir de parâmetros definidos pela consultora de relações públicas Edelman, que faz este estudo internacional há 11 anos.

De acordo com os dados sobre Portugal do TrustBarometer - Barómetro de Confiança apresentados ontem, entre 2010 e 2011 a confiança dos portugueses aumentou nas empresas, nas organizações não governamentais (ONG) e nos media, e caiu de forma bastante significativa no Governo: de 27 para nove por cento. Se em 2010 as ONG já eram as instituições mais confiáveis, estão agora reforçadas - subiram de 52 para 69 por cento. As empresas e os media recebem mais crédito dos cidadãos: sobem, respectivamente, de 34 para 47 por cento e de 32 para 39.

Se já por si a baixa confiança dos portugueses no Governo é expressiva, ela torna-se mais significativa quando comparada com os valores do estudo global da Edelman, apresentado no Fórum Mundial de Davos. Portugal é o país entre os 24 analisados onde os cidadãos mais desconfiam do executivo. A Irlanda, que atravessa uma crise económico-financeira semelhante a Portugal, aparece logo a seguir, com 20 por cento, e a Espanha ocupa o 17.º lugar, com um índice de 43 por cento de confiança no Governo. No outro extremo do ranking aparecem a China e Emirados Árabes Unidos como os mais confiantes (88 por cento), seguidos do Brasil (85), Singapura (77) e Holanda (75). Portugal também é o segundo que menos credibilidade atribui a um porta-voz do Governo.

O estudo internacional não apresenta razões para este desencanto - por isso, mantendo a metodologia, a análise portuguesa da EGP também não as inclui. "Não se trata de um estudo político ou uma sondagem de opinião", realça Carlos Brito, docente da instituição e coordenador científico do trabalho. Mas acede a fazer interpretações, lembrando que "não foi usada uma amostra representativa da população", antes uma "amostra de portugueses informados", tal como acontece no estudo global: são 203 inquiridos com formação superior, consumidores habituais de informação política e económica. Os inquéritos foram realizados nos últimos trimestres de 2009 e de 2010.

Esta depreciação do Governo "demonstra que as pessoas estão frustradas". As respostas dos inquiridos são "o espelho do país". "Os cidadãos esperavam mais do Governo e o desempenho económico do país está abaixo das suas expectativas", afirma Carlos Brito, que diz também que os portugueses mostram algum "encantamento" em relação às ONG, precisamente por serem o oposto do Governo.

Os extremos

Olhando para os dados globais, Portugal é o que menos confia no Governo e dos que mais confiam nas ONG. Os resultados portugueses demonstram a "emotividade na maneira de responder", considera o coordenador, e levantam questões sociológicas. "Os portugueses são de extremos: de grandes euforias e desespero. Quando confiam, confiam mais do que os outros, e quando são desconfiados, são-no também mais do que os outros."

Entre os desconfiados, Portugal é o que mais confia nos media (39), quando se trata de obter informação económica - nos extremos encontram-se a Indonésia (86 por cento de confiança) e o Reino Unido (22). E a fonte preferida são os motores de busca como o Google (31), seguidos da rádio e revistas (22 cada), jornais e televisão (18). No fundo da lista aparecem os blogues (4), Twitter e redes sociais (2).

No âmbito empresarial, os valores referidos pelos portugueses (47 por cento) colocam Portugal perto dos Estados que dizem ter menos confiança (44) nas empresas. Dão mais crédito aos sectores da tecnologia e biotecnologia, e menos ao sector financeiro, que inclui a banca e seguros - como acontece em todos os países analisados. Apesar da reduzida confiança na banca (37 por cento), Portugal está acima da Espanha (35), Estados Unidos (25), Alemanha (23), Reino Unido (16) e Irlanda (6). "A banca portuguesa tem mostrado alguma solidez, apesar dos casos polémicos [BPN e BPP]. Há um efeito de contágio" da culpa pela crise que o Governo português atribui à pressão dos mercados financeiros internacionais, admite Carlos Brito.

Questionados sobre os factores de reputação de uma empresa, os inquiridos valorizaram a transparência, a responsabilidade social, o preço justo e competitivo nas marcas e o modo como trata os funcionários.

O estudo mostra um aumento do optimismo global em muitos países, em especial nas economias emergentes, como Brasil, China e Índia, ao passo que as "anglo-saxónicas como Estados Unidos e Reino Unido têm clara perda". É a prova "de que o centro do mundo está a deslocar-se para oriente e esta é uma tendência para ficar", considera o coordenador.

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