Mundos inteiros dentro da cabeça deles

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Alexandre da Fonseca integra a colecção portuguesa... FOTOGRAFIAS: DR

Há pessoas que fazem centenas, milhares de desenhos, que pintam obsessivamente durante anos, que criam obras de arte em quartos fechados ou em enfermarias de hospitais psiquiátricos. Não se vêem como artistas, mas há já vários museus por todo o mundo com o seu trabalho. Em Portugal existe uma colecção de Arte Bruta, do Hospital Miguel Bombarda, com "grande valor histórico", dizem os peritos. Por Alexandra Prado Coelho

Os vizinhos não tinham dúvidas de que Henry Darger era um homem estranho. Discreto, metido consigo, este guarda de um hospital ia de casa para o emprego, em Chicago, e só saía novamente para ir à missa - o que chegava a fazer cinco vezes por dia. Mas o que era realmente estranho era o facto de ele apanhar lixo na rua e levá-lo para casa.

No entanto, nada disto fazia adivinhar o que se passava dentro do quarto alugado em que Darger vivia há 31 anos, no número 851 da Webster Avenue. E sobretudo o que se passava dentro da sua cabeça.

Quando Darger, já com dificuldade em subir as escadas, teve que ir para um asilo, o fotógrafo e designer Nathan Lerner, que era seu senhorio e de certa forma protector (manteve-lhe a renda baixa e até lhe organizou uma festa de anos, conta John Macgregor na biografia que escreveu de Darger), fez uma descoberta extraordinária.

No quarto de Darger, por entre caixas de tintas, e de lápis de cores, e pilhas de revistas, estava uma obra de dimensão esmagadora: só um dos livros, intitulado The Story of the Vivian Girls, in What is Known as the Realms of the Unreal, of the Glandeco-Angelinian War Storm Caused by the Child Slave Rebellion, tinha 15.145 páginas. É considerada a mais longa obra de ficção alguma vez escrita.

Darger é hoje visto como um dos mais desconcertantes artistas no campo da Outsider Art ou Arte Bruta - uma das mais importantes colecções nesta área foi iniciada pelo pintor e escultor Jean Dubuffet e está actualmente reunida no museu Colecção de Arte Bruta de Lausanne, Suíça.

Para além do que ficou conhecido como Realms of the Unreal, no quarto de Darger foi também encontrado uma sequela com oito mil páginas, uma autobiografia, vários diários e um registo exaustivo das condições meteorológicas diárias ao longo de dez anos.

O clima era uma obsessão para Darger. Nathaniel Rich conta num texto publicado na revista norte-americana The New Republic que, quando alguém o encontrava na rua e o abordava, ele não respondia directamente, em vez disso começava a falar do tempo e em particular de tempestades e tornados. A sua vida parece, aliás, ter sido profundamente marcada por um tornado a que terá assistido.

A história é contada pelo próprio nas suas memórias. O livro, The History of My Life, tem cerca de cinco mil páginas e começa por descrever a sua infância. Darger (1892-1973) nasceu em Chicago. A mãe morre quando ele tem quatro anos, a irmã recém-nascida é dada para adopção e ele nunca chega a conhecê-la. Passa a infância com o pai, mas quando a saúde deste se deteriora, Darger é levado primeiro para uma instituição católica para rapazes e, depois, para um asilo para "crianças com a cabeça fraca", onde terá sofrido castigos violentos.

A guerra das Vivian Girls

Depois de várias tentativas falhadas, consegue fugir em 1908 e, ao caminhar a pé de volta a Chicago, assiste ao fenómeno que o marca profundamente: um enorme tornado, que deixa devastada uma parte da zona de Illinois. A descrição da história da sua vida é interrompida na página 206 e a partir daí as 4878 páginas seguintes são dedicadas à descrição do tornado e dos seus efeitos.

O quarto onde Darger viveu foi cuidadosamente reconstituído no Intuit: Center for Intuitive and Outsider Art, em Chicago - móveis de madeira cheios de papéis, imagens da Sagrada Família na parede, uma lareira, mais imagens religiosas, retratos de crianças. A infância era outra das suas grandes obsessões. Foi por isso que criou a longuíssima história - em texto e em três volumes com centenas de aguarelas, rolos e rolos de desenhos, encontrados também no seu quarto - das Vivian Girls e a sua guerra contra os bárbaros da Glandelinia.

A história dos Realms of the Unreal passa-se num planeta muito maior do que a Terra e do qual esta é uma lua. A guerra opõe a nação cristã da Abbiennia às forças bárbaras da Glandelinia, que massacram povos inteiros e condenam as crianças à escravidão. As heroínas são as sete louras Vivian Girls, filhas do imperador da Abbiennia, e que ao longo de milhares de páginas enfrentam as forças do mal numa guerra apocalíptica.

As imagens que Darger usa são geralmente de crianças angelicais, recortadas de revistas e ampliadas (gastava parte considerável do seu pequeno ordenado a fazer ampliações). Entre estes rostos de crianças havia um que o fascinava mais do que todos: o de Elsie Paroubek, uma menina de cinco anos assassinada em 1911, e cuja foto apareceu no jornal. Darger recortou-a e guardou-a até que um dia a perdeu - segundo dizia, tinha-lhe sido roubada do cacifo no trabalho.

Quando já estava no lar, disseram-lhe que todo o seu universo secreto tinha sido descoberto. Ele respondeu apenas: "Agora é demasiado tarde."

E, no entanto, uma das principais características da Arte Bruta é o facto de os seus autores trabalharem apenas para si próprios. Não estão interessados em expor ou em vender os seus trabalhos. Fazem-nos unicamente por necessidade de se exprimirem, explica ao P2 Sarah Lombardi, da Colecção de Arte Bruta de Lausanne.

Quando se folheia o livro sobre este museu da série Museus Suíços, sucedem-se os rostos destes artistas que só foram descobertos por um golpe de sorte - e porque Jean Dubuffet se empenhou em reunir as suas obras antes que elas se perdessem.

Laure, por exemplo, é uma mulher de ar sonhador, cabelo às ondinhas coladas à testa. Nascida em 1882, foi só depois da sua morte, em 1965, que se descobriram os perto de 500 desenhos que fizera nos últimos 30 anos da sua vida e que, julga-se, ela via como mensagens mediúnicas e não como obras de arte - e que, aliás, nunca mostrara a ninguém. São traços ondulantes, por vezes insistentes, noutros casos rendilhados, azuis, que compõem figuras, por vezes com rostos em perfil.

Emile Josome Hodinos, nascido em 1853 em Paris, é internado aos 23 anos num asilo, onde acabará por morrer. Passa grande parte da sua vida a desenhar obsessivamente projectos de medalhas e no início da sua autobiografia descreve-se como se fosse ele próprio uma efígie de uma medalha comemorativa.

A obsessão é, aliás, um traço de muitos destes artistas, como o mineiro Augustin Lesage, que garantia ter ouvido uma voz que lhe dissera que seria pintor. A primeira obra que fez foi numa tela de nove metros quadrados que pintou minuciosamente, com detalhe obsessivo, durante mais de um ano - limitando-se, dizia, a cumprir o que lhe era indicado pelos espíritos, que iam desde o da sua irmã Marie, morta aos três anos, a Leonardo da Vinci.

A colecção portuguesa

Em Portugal existe uma importante colecção de arte de doentes mentais - Arte Bruta ou Outsider Art, como é chamada. Os desenhos, pinturas, e até fotografias que constituem a colecção do Hospital Miguel Bombarda, em Lisboa, formam um conjunto "de grande valor em termos da história das criações autodidactas nos hospitais psiquiátricos europeus", de acordo com a avaliação feita por Lucienne Peiry, directora do museu Collection de l"Art Brut de Lausanne, Suíça, uma das mais importantes instituições ligadas a este tipo de arte.

O museu suíço e a sua directora subscreveram um abaixo-assinado pela preservação do Museu de Pintura de Doentes e das Neurociências do Hospital Miguel Bombarda. "As obras têm um valor histórico importante em termos da produção feita nos hospitais psiquiátricos no início do século XX", confirma ao P2, numa conversa telefónica, Sarah Lombardi, do museu de Lausanne.

Antigamente não se valorizava este tipo de trabalhos. Lombardi dá o exemplo de Aloïse, uma das artistas representadas na colecção suíça. "Quando foi internada num hospital psiquiátrico começou a criar. Ao princípio destruíam-se as suas criações, mas depois houve uma médica que se interessou...".

No Miguel Bombarda, o caso de Jaime Fernandes, que aí esteve internado, tem semelhanças com o de Aloïse. Muitos desenhos deste artista que hoje está representado em museus como o de Lausanne ou a colecção abcd, em Paris, ou ainda na Gulbenkian, em Lisboa, foram destruídos ou perderam-se. O que Victor Freire, um dos administradores do hospital - que está a encerrar sem que os ministérios da Saúde e da Cultura tenham tomado uma posição sobre o futuro do museu e da colecção -, quer garantir agora é que as obras que chegaram até nós desde o início do século XX não se percam também. Daí o apelo e o abaixo-assinado - que teve o apoio de figuras como a pintora Paula Rego e o neurocientista António Damásio.

John Maizels, editor da revista Raw Vision, editada no Reino Unido e especializada em Outsider Art, foi um dos subscritores do apelo. "É uma colecção de Outsider Art muito importante e é parte da herança cultural de Portugal", escreveu. Ao telefone com o P2 é ainda mais afirmativo: "É uma colecção com coisas muito antigas, e com grande valor histórico. Se o seu país não estiver interessado em cultura e não a quiser que diga, porque há muita gente no mundo interessada."

Maizels destaca o facto de ser uma colecção com obras muito antigas, "o que é raro". E diz que não tem conhecimento de que exista na Península Ibérica outra desta dimensão - estão identificadas 3500 obras desde 1902. "O que é que fazem se encontrarem moedas romanas? Vão querer pô-las num museu, não? Pois aqui é a mesma coisa." Há já hoje muitos museus e coleccionadores deste tipo de arte, que é reconhecida como "uma componente muito importante no desenvolvimento da arte visual e da sua relação com o espírito humano criativo".

Jean Dubuffet também teve inicialmente grandes dificuldades em conseguir um lugar para a sua colecção, lembra Sarah Lombardi. Face ao desinteresse manifestado por Paris, o artista acabou por escolher Lausanne. Hoje o Museu de Arte Bruta tem mais de 40 mil visitantes por ano interessados em descobrir os imensos mundos que existiam dentro das cabeças destas pessoas que nunca disseram de si próprias que eram artistas.