Golfe

O torneio dos recordes impossíveis

Será Kim Jong-il o melhor jogador de golfe de todos os tempos?
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Será Kim Jong-il o melhor jogador de golfe de todos os tempos? Foto: Reuters (arquivo)

Segundo a propaganda da Coreia do Norte, Kim Jong-Il é o melhor jogador de golfe de sempre. Conta a lenda que o ditador norte-coreano, na primeira vez que jogou golfe, fez uma volta de 38 abaixo do par, incluindo 11 holes-in-one, de longe um recorde mundial - Tiger Woods, em toda a sua carreira, fez 18 - e que completa quatro ou cinco buracos em uma pancada, de forma rotineira, cada vez que joga golfe. Sem câmaras, árbitros ou testemunhas, a proeza golfista do "Querido Líder" é propaganda no país eremita e uma anedota no Ocidente, mas é o recorde do complexo de golfe de Pyongyang, onde, em Abril deste ano, se irá realizar um torneio internacional de golfe, apenas aberto a jogadores amadores. Tiger Woods, Sergio Garcia ou Lee Westwood escusam de tentar inscrever-se.

Para a Lupine Travel, agência de viagens britânica que promove o torneio, a ideia está a ser um sucesso. "Até agora já tivemos mais de 200 pedidos de informações e já temos dez inscritos confirmados. Os jogadores são do Luxemburgo, Alemanha, Inglaterra, Austrália, EUA e Japão. Também já nos escreveram de Portugal", diz ao PÚBLICO Dylan Harris, director da agência, que é especializada em destinos menos habituais como a Coreia do Norte, o Turquemenistão ou Chernobyl.

Não há prémios monetários para os participantes, por se tratar de um torneio amador, mas quem quiser entrar terá de pagar, à cabeça, 999 euros, que inclui presença no torneio, viagens de comboio entre a China e a Coreia, todas as refeições, quatro noites num hotel de cinco estrelas e uma excursão de três dias pelo país - o pacote não inclui as viagens de avião. O número de participantes não deverá exceder os 30, explica Dylan Harris, porque "é a primeira vez" que organizam o torneio. "Mas estaremos mais bem preparados no próximo ano e esperamos que sejam mais dias e com mais gente."

O cenário para a prova será o complexo de golfe de Pyongyang, o único campo de golfe do país, que é frequentado pela elite do regime e por alguns convidados estrangeiros. Segundo o site do torneio, é "o campo de golfe mais exclusivo do mundo". Localizado nas margens do lago Taicheng, a 27 quilómetros de Pyongyang, o campo de 18 buracos (par-72) estende-se por 120 hectares. Até há pouco mais de dois anos, existia ainda outro campo de golfe, no complexo turístico de Ananti, em Kumgang, que tinha um dos buracos mais longos do mundo, um par 6 com 926 metros de comprimento. Mas o complexo foi encerrado indefinidamente poucos meses depois da sua inauguração, depois de uma turista sul-coreana ter sido abatida a tiro por um soldado do Norte.

O torneio, que se irá realizar entre 26 e 30 de Abril, será mais para curiosos com algum dinheiro no bolso que jogam golfe ao fim-de-semana e o objectivo das autoridades norte-coreanas é recolher mais algumas divisas e expandir a sua limitada oferta turística, limitada a poucas centenas de visitantes por ano. Dylan Harris até ficou surpreendido quando o país concordou com a ideia. "Lembrei-me disto quando um golfista escocês me perguntou se podia ir jogar golfe na Coreia do Norte. Quando eles concordaram, eu perguntei-lhes sobre a possibilidade de organizar o torneio, mas nem estava à espera que eles me dissessem que sim. Fiquei chocado quando eles concordaram!", diz o agente de viagens.

De férias

Um dos dez jogadores confirmados é Rab Wood, golfista amador e investidor de 44 anos. Já jogou em 280 campos diferentes em todo o mundo, incluindo Portugal, mas nunca num que fosse tão exclusivo. "Foi um convite do director do torneio. Vou fazer parte de um grupo exclusivo de pessoas que jogou golfe na Coreia do Norte", diz este escocês de Edimburgo, que vai aproveitar as suas já planeadas férias na China para dar um salto a Pyongyang para jogar golfe. Portanto, acrescenta, o rombo no seu orçamento não será grande.

Wood é diplomático e faz questão de dizer que vai à Coreia apenas por razões desportivas, preferindo não se referir ao regime que fechou o país ao resto do mundo, mas admite que é uma situação pouco habitual. "É um campo de golfe com 18 buracos. O que é menos usual é a localização do campo." Já o desenho do campo não lhe sugere grandes dificuldades. "Parece-me de dificuldade moderada. Não me parece é que tenha sido muito usado. Acho que tem poucos membros e devem ser quase todos do Governo", refere Wood, que, em toda a sua vida, apenas conseguiu três holes-in-one, sempre em rondas diferentes. Será que a marca de Kim Jong-Il está em risco? "[risos] Ia precisar de um dia muito, muito bom para chegar a esse recorde, nunca se sabe. Acho que o recorde do "Querido Líder" não está em perigo."