Primeiros números da execução orçamental ditarão futuro do Governo

O debate "dentro da esquerda e den- tro do PS" que António Vitorino disse ser preciso realizar não segue dentro de momentos. O ex-dirigente nacional do PS sustentou esta necessidade com os resultados eleitorais de Manuel Alegre (19,7 por cento), que, notou, ficaram "abaixo das expectativas" dos socialistas. Embora os dirigentes do PS ouvidos pelo PÚBLICO concordem com a ideia de Vitorino, preferem protelar a discussão interna sobre presidenciais para o momento em que o partido terá de escolher um novo candidato a Belém.

Apesar de as próximas eleições acontecerem em 2016, o PS terá de reflectir sobre o facto de não ter conseguido, com Alegre, fixar o eleitorado socialista - resultado a que não foi alheia a aliança com o Bloco de Esquerda, argumentam.

Mais do que debater a derrota de Alegre, importa agora esperar para ver qual a sustentabilidade do Governo. Janeiro será crucial na definição do futuro político imediato do executivo, uma vez que no final do mês serão conhecidos os números da execução orçamental.

Diante de bons resultados, a entrada do Fundo Monetário Internacional poderá ficar suspensa (mesmo que temporariamente) e, consequentemente, o Governo terá capacidade pa- ra afastar o fantasma de uma eventual crise política. Caso contrário, os socialistas não duvidam de que o PSD não hesitará em movimentar-se para explorar a situação.

Mesmo que os primeiros resultados da execução orçamental sejam benéficos para o Governo, a erupção de uma crise política não deixará de es- tar iminente. Porque o momento crí- tico seguinte será a discussão do Orçamento do Estado para 2012. E os socialistas acreditam que o PSD não vai deixar de "causar dificuldades", aponta um dirigente nacional do PS. Mais do que uma eventual intervenção do Presidente da República (cuja "magistratura actuante" não traduz, para o PS, qualquer perigo real), o Governo e os socialistas consideram que todas as batalhas pela permanência do executivo serão realizadas na Assembleia da República.

Entre as tentativas de procurar a estabilidade política - já proclamada por Sócrates anteontem à noite, depois de anunciada a reeleição de Cavaco Silva - poderá estar uma remodelação governamental, prevista para depois da tomada de posse do Presidente (9 de Março). Ao que o PÚBLICO apurou, o executivo poderá vir a ser reduzido, com a fusão de órgãos e a acumulação de pastas (para além da já habitual saída e entrada de novas caras).

Até lá, porém, o PS terá o seu congresso, embora não se vislumbrem novidades e candidaturas alternativas a Sócrates, que já anunciou a sua recandidatura. A reunião magna do partido ainda não foi agendada, mas dirigentes socialistas prevêem que aconteça nos últimos dias de Fevereiro ou no início de Março. A certeza, por ora, é que será sempre realizada antes da tomada de posse de Cavaco e que os putativos candidatos à sucessão de Sócrates (Francisco Assis e António José Seguro) não farão qualquer movimentação. E prevê-se igualmente que o Congresso seja dominado pelo debate das políticas e posições do Governo.

PS contra PS

Embora a cúpula do PS não pretenda, aparentemente, entrar numa troca de acusações com o BE a propósito da derrota de Alegre, ontem à tarde, e tal como o PÚBLICO antecipou na passada semana, pelo menos um dirigente socialista culpabilizou publicamente o BE pelos resultados eleitorais. Foi o que fez José Lello, que explicou que a união PS/BE não agradou ao "eleitorado tradicional" do PS e lembrou que Alegre, enquanto deputado, tomou várias posições "contra o PS e contra o Governo". A resposta a Lello não tardou. E veio de Pedro Nuno Santos, apoiante de Alegre e presidente do PS-Aveiro, que lamentou as "análises precipitadas de um militante do PS que pouco ou nada fez para que os resultados fossem melhores". O ex-líder da JS aproveitou ainda para refutar Vitorino, que sempre discordou da escolha de Alegre e da aliança com o BE, afirmando que o antigo governante disse "aquilo que só interessa à direita". com S.J.A.

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