CARTAS À DIRECTORA

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"Os resistentes da serra da Estrela"

Venho por este meio agradecer ao PÚBLICO o privilégio de poder continuar a ler um jornal em língua portuguesa que não o dialecto que o Acordo Ortográfico do Sr. Eng.º Sócrates nos quer impor. Quero também agradecer as belíssimas crónicas sobre os resistentes da serra da Estrela, referindo em especial a que foi publicada no dia 30/12/2010, na qual um pastor, na sua simplicidade, fez, sem querer, o retrato da actual situação a que chegou o nosso país. Disse ele ao jornalista:

O pastor dorme sempre de pé porque dorme sempre em sobressalto. "Se não soprava o vento, atacavam os lobos. Era preciso estar atento, porque eles chegavam em alcateias, sem fazer barulho, às vezes, matavam duas ou três ovelhas, antes que eu desse por alguma coisa... atacavam a ovelha pelo pescoço, tudo em silêncio... As cabras, mal sentem o lobo aproximar-se, berram, berram, até o lobo se assusta com aquilo e às vezes foge... mas as ovelhas não, ficam caladinhas. O lobo pode atacar, e até comê-las, que não abrem a boca. É a maneira de ser delas, gostam de sofrer caladas".

Mais palavras para quê?

Maria das Dores Vicente Pereira

Lisboa

A sementeira da descrença

A crise económica que o país atravessa tem pai e mãe. Ou melhor, tem uma paternidade definida na opinião pública generalizada. Tem raízes na irresponsabilidade daqueles que deviam zelar pelo interesse da comunidade nacional e que, por interesses pessoais ou de grupo, abdicaram das suas obrigações, lançando-se num incomensurável mar de incompetência, falta de rigor e ética, com ondas permanentes de nepotismo, protegendo e protegendo-se, através de figuras ou de grupos, nomeados, a esmo, para lugares do poder, sejam eles políticos ou de serviços. (...) Naturalmente que haverá muita gente honesta que ocupa ou ocupou lugares públicos de responsabilidade, pelo que é incorrecta a generalização, só que, em desespero, é difícil ser lúcido.

Quem vê e ouve os programas diários de opinião, verifica que os telespectadores estão descrentes e metem tudo no mesmo saco. E isso é perigoso e desmotivante, porque não acreditam que esta gente, que criou tal situação, tenha capacidade para resolver os problemas criados.

Olham ao currículo de uma grande parte dos políticos ou de pessoas que são nomeadas para sinecuras de influência partidária e não lhes conhecem mais que uma fidelidade ao partido, desde a carreira iniciada nas Juventudes, que lhes granjearam os primeiros empregos, até aos lugares de políticos profissionais. Outros passaram pelos governos e saíram para empresas que mantêm negócios volumosos com o Estado. É legal, mas não deixa de criar algum incómodo a quem observa por fora. A sementeira da descrença está no terreno. É preciso agir, com inteligência, para que não se desenvolva e produza frutos nocivos.

Joaquim Carreira Tapadinhas Montijo

Debates televisivos

Ao contrário de muitos, segui com grande interesse os debates entre os candidatos à eleição para Presidente da República; e devo dizer que ainda bem que o fiz. É que o caso não é para menos: fiquei (ficamos) todos a saber que o Presidente candidato a Presidente não tem ninguém que lhe faça sombra quanto à honestidade, como ele nos disse sem papas (?) na língua: "Para serem mais honestos do que eu, têm que nascer duas vezes"! Com uma simples frase, fiquei a saber duas coisas, que eu ignorava liminarmente: que é possível, pelo menos em teoria, nascer mais do que uma vez e que se pode ser mais ou menos honesto. Imagine a sra. directora que eu pensava que nestas coisas da honestidade só havia duas hipóteses: ou se é ou se não é! (...) Confirmando-se assim que o nosso Presidente candidato a Presidente está na primeira linha dos honestos, muito me emocionei, tendo chegado a ter de disfarçar uma ou outra lágrima mais rebelde. E como classificar o puxão de orelhas que o Presidente candidato a Presidente deu, e muito bem, a esses preguiçosos que estão à frente do BPN? Muito merecido, evidentemente, senão vejamos: como é que em Inglaterra, um país pequeno e periférico, com um povo que não faz nada, que não tem indústria nem pesca nem agricultura, meia dúzia de artistas e dois ou três escritores, enfim, uma desgraça, as administrações nomeadas para os bancos nacionalizados endireitaram tudo num instante e aqui, Portugal, um país forte, industrializado, com um povo culto e trabalhador, sempre na vanguarda da civilização, os senhores nomeados para o BPN ainda andam às aranhas? Não se compreende, de facto, e os que, maldosamente, dizem que a atitude do Presidente candidato a Presidente é uma autêntica facada nas costas desses senhores, por mero acaso seus apoiantes destacados, só podem dizer isso porque são uns malandros, com certeza. (...)

José Alberto de Almeida e Brito

Carvoeira TVD