Um capitão moderado do 25 de Abril

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MIGUEL SILVA/arquivo

Menos mediático que outros capitães da revolução, o major é apontado pelos seus pares como um homem discreto. Tinha o dom da conciliação - por isso fez a ponte entre o Exército, a Força Aérea e a Marinha na preparação do golpe militar. Vasco Lourenço diz que ele foi o "cimento" indispensável ao sucesso da revolução. Por Maria Lopes

Às 4h26 de 25 de Abril de 1974 a voz de Joaquim Furtado ecoa no Rádio Clube Português para ler o primeiro de vários comunicados do Movimento das Forças Armadas. A revolução estava na rua. O papel dactilografado com notas manuscritas ao lado, que o jornalista ainda guarda, e os comunicados que se seguiram foram escritos pelo major de Infantaria Vítor Alves, o porta-voz do Movimento das Forças Armadas (MFA).

De ar grave mas sereno, gestos decididos mas suaves, o major, que morreu no domingo, no Hospital Militar de Lisboa, aos 75 anos, foi um dos vértices do triângulo da direcção do movimento de oficiais das Forças Armadas (MFA), composto ainda por Otelo Saraiva de Carvalho e Rodrigo Sousa e Castro - depois de Vasco Lourenço ser preso. Nessa altura, aos 38 anos, tinha um currículo sem mácula onde constavam 11 anos em comissões militares nas então colónias de Moçambique e Angola.

Recue-se, agora, ao início do Outono de 1973, quando Vítor Alves começa a participar em reuniões clandestinas do Movimento dos Capitães - contesta a decisão do Governo que, pressionado pela falta de comandos intermédios no Exército, admite que os oficiais milicianos (chamados "espúrios") ultrapassem nas promoções os oficiais mais antigos formados na Academia Militar (os "púrios").

Com a revogação dos decretos, a movimentação das patentes superiores continua, embora neste final de 1973 a sua politização seja ainda muito incipiente. Sente-se necessidade de repensar a estratégia em África e deseja-se a mudança da situação política na metrópole. Numa reunião clandestina, em Dezembro, elege-se uma comissão coordenadora com oficiais de cada arma, como conta o coronel Sousa e Castro no livro Capitão de Abril, Capitão de Novembro (edições Guerra e Paz).

Vítor Alves assume um papel preponderante com a saída forçada do major Hugo dos Santos que foi incumbido pelo Governo de preparar um batalhão que deveria seguir para Ultramar. Passa a ser o elo de ligação entre os ramos das Forças Armadas. Otelo tem a "pasta" do secretariado, Vasco Lourenço é o responsável operacional e da estrutura interna. "O Vítor Alves tinha uma consciência política e conhecimentos sociais que eram muito úteis ao movimento", recorda Otelo Saraiva de Carvalho, estava no Estado-Maior do Exército, "podia trazer mais gente para a causa".

É em Fevereiro de 1974 que surge o primeiro documento de reflexão política, O Movimento, as Forças Armadas e a Nação, elaborado pelo major Melo Antunes, que, embora ainda vago, tem o dom de congregar os oficiais. Acaba por ser a génese do programa do Movimento das Forças Armadas (MFA). E Alves fica encarregue de coordenar o programa final, negociando-o com a Marinha e a Força Aérea - esta última renitente em aceitar que o manifesto desse às colónias direito à autodeterminação e independência.

O "cimento" da revolução

"A Marinha estava mais virada para a frente, e no Exército havia alguns apressados para sair para a rua. Não deve ter sido fácil gerir as várias vontades", recorda o coronel Vasco Lourenço. Alves "era um óptimo relações públicas, um diplomata; era um homem de consensos, mas firme nas suas convicções". E funcionou como uma espécie de "cimento", que agregou os vários componentes da revolução. "Sejamos realistas" era a expressão que mais se lhe ouvia, diz Otelo.

O major desdobra-se em reuniões clandestinas, boa parte em sua casa, em Oeiras, que lhe exigem muita ginástica na gestão familiar: é genro do almirante Eugénio Ferreira de Almeida, então chefe do Estado-Maior da Armadacom ambições políticas - perfila-se como candidato da Acção Nacional. Mas Alves não o pode avisar. Depois do 25 de Abril, o sogro, demitido, não lhe perdoa e corta relações durante largos anos. "Além da vida profissional, até a vida familiar o Vítor Alves arriscou para fazer o 25 de Abril", realça Vasco Lourenço.

A 16 de Março, a tentativa de golpe militar contra o regime como reacção à demissão dos generais Costa Gomes e Spínola funciona como uma espécie de ensaio para Abril - e torna os capitães mais cautelosos.

Vítor Alves fica porta-voz oficial do movimento. "São-lhe reconhecidos os dotes de oratória, enorme bom senso e lucidez e talento para fazer conciliações", diz Otelo, que o vê como "um paladino da democracia representativa", também defendida pelo major Melo Antunes, figura central do programa do MFA. A dupla Alves-Antunes é defensora de uma solução menos radical na tomada do poder. Aos que defendem a substituição do regime por uma solução militar com os protagonistas do golpe Alves contrapõe que a melhor solução é formar um directório militar com os três ramos, liderado por generais, para ser mais fácil obter o reconhecimento imediato do novo poder político do país - e, sobretudo, não envolver qualquer partido político no assunto. O problema é que há apenas três militares com tal patente, contando com Costa Gomes e Spínola, demitidos. E é a estes que se apresenta o programa, aceite depois de uma discussão difícil.

Em meados de Abril fica pronto o plano militar de Otelo e a 23 está tudo organizado: a Marinha e a Força Aérea não alinham, mas Vítor Alves consegue a garantia da sua neutralidade. No dia 25 a revolução está na rua. O mais pacífica que poderia ser - nem mesmo Alves a esperava assim.

O major Vítor Alves ganha exposição no dia 26, quando pelas 7h30 lê, em conferência de imprensa, o novo programa do MFA, já com o acordo da Junta de Salvação Nacional.

Comparativamente a figuras como Salgueiro Maia, Otelo e mesmo Vasco Lourenço, Vítor Alves acaba por ser mediaticamente menos conhecido. E é, afinal, aquele que tem uma carreira pós-25 de Abril bem mais diversificada. "Era um homem de bastidores", justifica Otelo. "Não tinha qualquer espécie de carisma para estar sob os holofotes. Não que fosse tímido, era discreto."

A seguir ao 25 de Abril, enquanto membro do MFA, pertence ao Conselho de Estado. Em alguns governos provisórios é ministro sem pasta, tutela a Defesa Nacional e a Comunicação Social (aprova a primeira lei de imprensa do período democrático) e também a Educação e Investigação Científica (lança o Museu Nacional da Ciência e da Técnica, em Coimbra).

As divergências políticas com Otelo brotam com as posições do Grupo dos Nove, um grupo de oficiais do MFA da facção moderada que surge sob a liderança de Melo Antunes e publica, em pleno Verão de 1975, o Documento dos Nove sobre tendências políticas - uma resposta ao documento Aliança Povo/MFA, de Julho.

Recusa o modelo social-democrata ocidental e também o da Europa de Leste. É antes favorável a uma democracia política de cariz socialista, pluralista e com um conjunto de liberdades, garantias e direitos fundamentais. "A minha posição era mais enérgica. Eu não gosto deste regime actual, embora fosse o que o Vítor preconizava", comenta Otelo. "Seguimos campos opostos, mas ficou uma forte amizade." E recorda o tempo em que esteve preso e Alves "participava nas vigílias nos campos do Jamor - uma ousadia para a posição dele -, com o Zeca Afonso a cantar à luz das velas".

O homem da pêra

Vítor Alves torna-se conselheiro de Ramalho Eanes, quando o general assume a Presidência da República. É sob a sua influência que nos anos 80 se candidata a deputado, eurodeputado e à Câmara de Lisboa pelo Partido Renovador Democrático. Passa à reserva em 1982, já com a patente de tenente-coronel - e a coronel em 2001. Recebe condecorações em Portugal e funda a Associação 25 de Abril. Entre outras actividades, preside à Comissão Nacional do Dia de Camões, das Comunidades e de Portugal. Vasco Lourenço recorda o seu gosto pelas viagens e as piadas que se faziam: "Se houvesse um português no Pólo Norte, o Vítor Alves ia lá visitá-lo no Dia das Comunidades."

Era conhecido como o homem da pêra: patilhas, fartos bigodes e barba engalanavam as caras de muitos portugueses, mas os militares deviam ter a cara limpa. A pêra do capitão foi motivo de pergunta de um cadete numa entrevista num jornal militar e lá teve Vítor Alves que a justificar, em tom didáctico, com um fungo, que altera a pigmentação da pele, contraído numa das missões em Angola e que lhe permitira ter autorização superior para deixar crescer tais pêlos. Imagem de marca que o acompanhou até ao fim.