Alegre e o domínio da forma

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Vale a pena apreciar como tem evoluído a campanha de Manuel Alegre. Não digo "evoluído" por acaso. Adaptações e mudanças são uma contingência normal em qualquer campanha. Mas no caso de Alegre temos visto mais do que isso. A prova definitiva da fraqueza de Alegre nestas presidenciais está na instabilidade com que o próprio tem vindo a mudar de discurso e roupagem, experimentando tudo para conseguir agrupar à sua volta aqueles que à esquerda nunca digeriram Cavaco Silva, mais os descontentes que responsabilizam sem excepção todos os políticos pelo estado em que o país está. Só que não o tem conseguido.

De político o que temos andado a ouvir a Manuel Alegre? Nesta campanha ele começou por invocar o património histórico da esquerda. Esse património consiste fatalmente na velha cassete antifascista e no solidarismo retórico. "Justo" e "solidário", não é assim que ele se define? E também o "homem de cultura". Mas se aqueles que Alegre tinha primeiramente de conquistar - os não-alegristas do centro-esquerda - não se deixam convencer nem com memórias, nem com frentismos de esquerda, pergunto-me o que farão todos os outros indecisos. Os de centro-direita não toleram o Bloco de Esquerda. E como lamentou ontem neste jornal Teresa de Sousa, que pode servir de testemunho para todo esse espaço, "Alegre tem muito pouco oferecer". Falta-lhe uma plataforma política clara, já que não é possível ser-se ao mesmo tempo candidato do Bloco e do PS, ainda para mais estando este PS no Governo. O que poderia unir a esquerda na oposição não se repete, se aqueles que são também os rostos da crise andarem connosco na estrada. Isso não faz de Alegre o candidato da mudança, mas sim da mistura impossível entre o statu quo e o protesto.

Mas Manuel Alegre, verdade se diga, tem desejado ir para além disso. Virou-se também para a querela dos poderes presidenciais, querendo fazer desta eleição um referendo à forma pretensamente pouco limpa como Cavaco desempenhou os seus poderes. Mas se até um académico insuspeito como Gomes Canotilho disse ao Expresso que, "sendo Cavaco Silva muito cauteloso, acaba por ter uma interpretação republicana do texto constitucional", o que sobra deste argumentário de Alegre? Dizer que Cavaco Silva tem feito de menos como Presidente? Sim, e é o que tem dito Alegre. Mas qual é o principal exemplo a que recorre Alegre para fundamentar o minimalismo de Cavaco? A Europa, a nossa precária posição nos mercados financeiros, os juros da dívida. Aí ficamos convencidos que Alegre tem uma visão "idealista" da Europa, ou outra coisa que lhe queiram chamar. Pena é que essa visão não sirva para nada num Presidente.

Segue-se o catastrofismo: o discurso sobre a ameaça ao Estado social, a existência de uma agenda oculta de "descaracterização" da nossa democracia. Mas, como outros têm repetidamente lembrado, quando o Governo que o apoia extinguiu prestações e abonos sociais, o que pode dizer Manuel Alegre? Pois bem: pode dizer que com Cavaco Silva o conteúdo social da nossa democracia está em risco. Mas quem acredita nisso? Curiosamente, o mesmo Cavaco Silva que, recordam alguns apoiantes de Alegre, nunca vetou diplomas do Governo ou do Parlamento sobre matérias económicas e sociais.

Não admira que, após ter esgotado todos os temas, reste a Manuel Alegre um último trunfo: a forma. Em Alegre a forma prevaleceu sempre sobre a substância. O poeta, o aristocrata, o caçador, o patrício, o retórico, tudo questões de forma que lhe criaram uma certa imagem pública. Alguém se lembra, em décadas de experiência política no Parlamento, de alguma iniciativa legislativa relevante que tivesse saído das mãos de Manuel Alegre? Eu não. De Alegre só podemos dizer isso mesmo: uma candidatura da forma. Não chega para ser Presidente. Jurista