Crítica

Complexo - Universo Paralelo

Se as boas intenções não estão em causa, o resultado fica muito aquém das potencialidades que se sentem

Se pensarmos que os irmãos Mário e Pedro Patrocínio (respectivamente realizador e director de fotografia) passaram três anos na favela do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, para rodar "Complexo", é inevitável que haja um grande filme por entre a quantidade de material rodado. É pena é que não seja o que acabaram por fazer, compromisso meio desastrado entre um documentário tradicional, uma reportagem televisiva modernaça e um ensaio audiovisual estilizado.


Falta um verdadeiro trabalho estrutural que contextualize as figuras que os Patrocínio escolheram seguir ou apresente uma justificação para a existência do filme. Pior: à excepção da pungente história de D. Célia, a mulher de fé que cria quatro filhos (um dos quais deficiente) recolhendo latas e garrafas, nunca se sente aqui um olhar sobre os habitantes que vá mais fundo que a superfície.

Há momentos em que se entrevê um outro filme que ficou por fazer (por exemplo, nos planos do labirinto da favela, que não deixam de recordar, mesmo que involuntariamente, as Fontainhas como Pedro Costa as filmou); noutros fica-se com a sensação que os cineastas estão mais interessados no estilo e no ambiente no que nas pessoas que se filmam. Se as boas intenções não estão em causa, o resultado fica muito aquém das potencialidades que se sentem.

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