Florestas do litoral ameaçadas por praga do arbusto háquea-picante

A háquea foi introduzida para evitar que os animais destruíssem as plantações de pinheiros
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A háquea foi introduzida para evitar que os animais destruíssem as plantações de pinheiros Foto: Daniel Rocha/arquivo

A floresta do litoral português está a ser invadida pela háquea-picante (Hakea sericea), uma das pragas em forte ascensão no país, que põe em risco tanto os ecossistemas, como os cofres do Estado.

O arbusto ou pequena árvore perene, de folhas em agulha, robustas e muito picantes, não tem “inimigos” em território nacional e, por isso, está a espalhar-se de forma rápida no Minho, Douro Litoral, Beira Litoral, Estremadura, Ribatejo, Baixo Alentejo e Algarve, como revela o Guia Prático para a Identificação das Plantas Invasoras em Portugal, publicado em 2008 pela Universidade de Coimbra.

A Serra d´Arga, no distrito de Viana do Castelo, que as autarquias locais pretendem classificar como Área de Paisagem Protegida, é um exemplo da rápida capacidade de proliferação deste aparentemente insignificante arbusto. A situação foi denunciada por ambientalistas, que temem a capacidade exterminadora desta planta invasora, originária da Austrália. A bióloga Elizabete Marchante, uma das co-autoras do Guia Prático, confirma que, “em situações em que seja muito densa, dificulta muito a vida às outras espécies de flora e fauna”. Isto porque forma verdadeiras barreiras impenetráveis, tornando desérticos os terrenos em que habitam.

Foi devido a essas características que a háquea-picante foi introduzida no distrito de Viana do Castelo pelos serviços florestais, que inicialmente a utilizaram como sebe para evitar que os animais destruíssem as plantações de pinheiros.

Uma das particularidades desta espécie de arbusto é conseguir sobreviver apenas em zonas xistosas. Arga de São João e Arga de Baixo, duas aldeias da Serra d´Arga, são particularmente afectadas pela praga que está a ser combatida pela Câmara de Caminha, em parceria com a Direcção Geral das Florestas. O vice-presidente da autarquia e vereador responsável pelo pelouro do Ambiente e Florestas, Flamiano Martins, confessa que essa “batalha” não está a correr bem. “Há uma estratégia, mas, para já, não há resultados , nem sabemos se os vamos alcançar”, diz o autarca. A estratégia passou por queimar, no Verão passado, uma vasta área onde a infestante tinha proliferado. “Agora ela está a nascer com toda a velocidade e em grandes quantidades” revela o vereador, adiantando que o método seguido consiste em voltar a fazer outra queimada antes que essas plantas voltem a florir.

O fogo é, de facto, uma das metodologias mais indicadas para fazer o controlo da espécie, atesta a investigadora Elizabete Marchante que, contudo, adverte que esse é um método que tem de ser utilizado com “cuidado”. “É uma espécie que acumula as sementes na árvore durante toda a vida, não as liberta a cada ano. Ficam guardadas até a árvore ser queimada ou morrer”, explica.

Graças a estudos realizados em África do Sul, um país onde as infestantes causam graves problemas, concluiu-se que o melhor método é utilizar o fogo controlado para obrigar a árvore a morrer e a libertar as sementes. Mas, depois, adverte novamente a bióloga, é necessário fazer um novo fogo para garantir que as sementes que germinaram não voltam a invadir os terrenos. Por isso, o mais indicado é cortar as háqueas, colocá-las num mesmo local e realizar a queimada numa área pequena que possa facilmente ser controlada. “Um fogo feito com as árvores em pé pode ser mais problemático, porque nessa situação as sementes são dispersas para mais longe, podendo distanciar-se dezenas de metros”, alerta mais uma vez a bióloga.

Peritos denunciam fraqueza do combate às exóticas

A verba já dispendida nestas acções não é revelada pelo autarca, mas sabe-se que os prejuízos provocados por estas pragas são elevados, quando não controladas a tempo. No mundo inteiro, os prejuízos provocados pelas plantas invasoras ascendem a cinco por cento do PIB (Produto Interno Bruto) global. Números confirmados por Helena Freitas, bióloga no Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra e também ela co-autora do Guia Prático para a Identificação das Plantas Invasoras em Portugal, que desde 1996 vem alertando para o problema, não tendo obtido qualquer eco aos seus alertas. “Essa área nunca foi considerada relevante em Portugal. Agora é que os problemas acontecem, sobretudo as pragas, e vai havendo alguém que começa a olhar para isso”, lamenta.

Helena Freitas revela que a háquea-picante já existe em Portugal há algumas décadas, mas só no início deste século é que se tem revelado com “uma agressividade imensa”. “Neste momento é capaz de ser das pragas em forte ascensão”, admite.

A investigadora defende que o nosso país, atreito ao problema, deveria seguir o exemplo de África do Sul, onde o Estado considerou as invasoras um problema nacional, com o Ministério da Economia a definir um plano de acção contra infestantes para os próximos 25 anos. “Eles aperceberam-se que este já não é um problema ambiental. É mais grave do que isso porque põe em causa os sistemas hídricos e as espécies nativas com interesse económico. O impacto económico já é reconhecido internacionalmente”. Por isso, Helena Freitas apela ao Governo português para participar no programa de prevenção de plantas invasoras que a Agência Europeia do Ambiente está a preparar.