CARTAS À DIRECTORA

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2011

O calendário é um produto cultural do homem. Uma criação humana. Certamente, se Deus interveio nisto tudo, não criou algo tão precário e restritivo, que nos impede de alcançar o impossível, o desiderato do infinito. Também não é uma criação natural. A natureza tem ritmos que a razão humana desconhece, mesmo estudando-a com afinco e dedicação. E é, sempre, surpreendente. Mas aí, nós também. Contudo, somos homens, seres que criam e desenham ritmos, rectas e círculos à sua medida e condição. E, apesar dos erros e de tudo, gostamos de estabelecer limites que nos façam renascer a cada instante.

As empresas, as fábricas, as universidades, os hipermercados, as velhas mercearias que ainda resistem e são adoradas, nostalgicamente até, são produtos humanos - e até qualquer mudança que façam partem da carne e do osso de que os homens são feitos. O calendário, idem. 2011 é uma data bonita. É uma data verniana. Bem gostaria Júlio Verne, esse ser que imaginava futuros e mundos que, mutatis mutandis, até se concretizaram... bem gostaria Júlio Verne de viver este 2011. Não pode, coitado do homem. Podemos nós.

Mas, seres sem a imaginação e crença de Verne, alguns de nós não, parece que não gostamos. Estamos cheios de cagaço. Ouvimos profetas da desgraça, que não chegam aos calcanhares de Verne. E mais cagaço temos. Até questionamos "para quê viver neste país?", "para quê este país"?

Um novo ano é uma oportunidade única de reconquista do mundo (principalmente, do nosso). Lembremo-nos que 2010 foi um ano terrível para muitas pessoas, certamente, com perdas, dores, desilusões e medos. Saibamos, contudo, que essas pessoas estão aqui, algumas até sem um calendário, mas estão aqui, prontas para enfrentar 2011. Mesmo humanas, com medos e sugestões de medo humano, mas sem cagaço, ou com ele, mas superando-o, e atacando-o com outros palavrões: com garra. Para quê, então, tanto cagaço, meu país, e Nelsinho? E, afinal, país, tens o futuro, e tu, menino, além do presente e do futuro, tens até a escrita e o Hemingway. E tens tudo isso aí: dentro de ti. Sejam felizes!

Nélson Bandeira, Porto

Estado social

Um dos grandes perigos que as sociedades democráticas correm e que é susceptível de pôr em causa a sua própria viabilidade é a alarmante falta de cultura política e histórica, que leva muita gente, inclusive com responsabilidades políticas, a falar de tudo com pouco saber e ideias pouco consistentes, mal lidas e mal assimiladas.

Quer se queira, quer não, está enraizado no pensamento comum a crassa asneira de que a direita é contra o Estado social, que, pelo contrário, é acerrimamente defendido por toda a esquerda, constituindo mesmo uma das suas bandeiras. Quem ousa falar na alteração de qualquer artigo da Constituição ou das leis que tornem o chamado "Estado social português" mais justo, mais racional e viável é, de imediato e com maior ou menor arrebatamento verbal, apodado de perigoso agente da exploração e inimigo do trabalho.

Ora, procurar a satisfação dos direitos económicos e sociais de todos os membros de uma colectividade, tornando as suas vidas melhores e mais felizes, é um objectivo de qualquer governo moderno e civilizado, sendo errado sustentar que, entre nós, isso tenha sido apanágio exclusivo de governos de esquerda. (...)

Quero crer que, hoje em dia, políticos de diversos quadrantes, com um mínimo de inteligência e de bom senso, a quem a pobreza e a exclusão ofendem, têm concepções não muito diferentes acerca dos objectivos do Estado social. Contudo, as posições publicamente assumidas e a linguagem utilizada pela maioria das correntes de esquerda não ajudam nada a obter qualquer consenso, parecendo trechos de má retórica de séculos passados.

Pior do que tudo isto, porém, é o discurso oficial do PS, que surge como acérrimo paladino das grandes conquistas sociais (fica sempre bem acrescentar de Abril), que entra em transe ao falar nos "ataques" ao Serviço Nacional de Saúde e à escola pública e que, na prática, vai cerceando os direitos sociais e económicos, culpando, não os seus próprios erros, mas os tenebrosos mercados, os demoníacos especuladores e outras maldades estrangeiras, e conduzindo a população a um estado de pobreza que há muito não se via. Leia-se o PÚBLICO de sexta-feira passada e saiba-se o que vamos ter em 2011, trazido pelas mãos dos socialistas defensores do Estado social.

Francisco Silva Fernandes, Porto