Presidenciais

BPP diz que Alegre conhecia campanha publicitária

Candidatura de Alegre diz que não sabia que texto era publicitário
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Candidatura de Alegre diz que não sabia que texto era publicitário Daniel Rocha (arquivo)

BPP nega ter recebido cheque de Manuel Alegre e diz que o avisou sobre o cariz publicitário do texto.

Manuel Alegre não terá devolvido o montante de 1500 euros que recebeu há quase seis anos como pagamento da sua participação numa campanha publicitária do Banco Privado Português (BPP), tendo tido conhecimento atempado do destino do texto literário que lhe foi solicitado por Nuno Fernandes, responsável pela conta publicitária do banco na agência de publicidade BBDO.

Isto mesmo foi confirmado ao PÚBLICO por Manuel Rendeiro, antigo responsável pelas Relações Públicas da instituição bancária, que garantiu: “Ele nunca devolveu o cheque. Que isto fique bem claro. Quem disser o contrário está a mentir. Foi-lhe enviada uma declaração de rendimentos e existe o recibo verde.”

Ao PÚBLICO, Duarte Cordeiro, director de campanha da candidatura presidencial de Manuel Alegre, disse que o montante pago pelo BPP ao candidato “foi declarado no IRS de 2005”, uma vez que “o dinheiro entrou na conta dele”. Quanto à devolução do pagamento, que Alegre garantiu ter realizado ao endereçar um cheque à BBDO, Cordeiro remete para as explicações do socialista na RTP, anteontem à noite. “Ele disse que tinha recebido dinheiro e que passou um cheque a devolver o pagamento. Não sabe se foi descontado ou não, mas já pediu ao seu banco para verificar essa situação:”

Manuel Rendeiro apresenta, porém, uma versão diferente. Que começa com o contacto ao escritor, feito por Nuno Fernandes, em 2005, e com o posterior envio ao então deputado do PS e vice-presidente da Assembleia da República de cópias da publicidade do BPP na revista do semanário “Expresso”, permitindo-lhe que tivesse conhecimento do destino do texto que lhe foi encomendado (centrado na sua relação com o dinheiro). “Manuel Alegre recebeu um conjunto de três exemplares de anúncios já publicados para ver o ‘layout’ [desenho gráfico] e o tamanho do texto. Aceitou livremente. E o Expresso publicou o texto dele [intitulado “Um Par de Purdeys”] durante três semanas”, contou ao PÚBLICO.

Duarte Cordeiro nega, porém, que o candidato soubesse que o texto seria utilizado num anúncio publicitário. “Manuel Alegre não sabia qual o resultado final do trabalho. Não foi ele quem tratou directamente do assunto”, disse, recusando-se a identificar a pessoa que geriu o processo em nome do escritor.

Ao fim de três semanas de publicação consecutiva de “Um Par de Purdeys”, Rendeiro foi contactado por Nuno Fernandes: “Disse-me que a secretária de Alegre lhe tinha telefonado informando-o de que alguém na Assembleia da República tinha alertado o deputado para a possibilidade de a utilização do texto num anúncio publicitário não ser compatível com as suas funções”, afirma, acrescentando que a porta-voz de Alegre pediu a suspensão da campanha e avisou que o pagamento de 1500 euros seria restituído ao BPP.

“Eu respondi ao Nuno Fernandes que seria melhor dizer ao Manuel Alegre para dar o dinheiro a uma instituição de solidariedade de Águeda, por exemplo, que é a terra natal dele”, explica, reafirmando que o candidato “nunca devolveu o dinheiro”. “Há uma cópia do cheque, o recibo verde e a declaração para o IRS”, argumenta. Apenas a comissão liquidatária do BPP poderá “provar isso mesmo”, prossegue, esclarecendo que terá de ser o candidato presidencial a fazer esse pedido.

Confrontado com as declarações de Rendeiro, Duarte Cordeiro considera que “nada contradiz aquilo que já foi dito por Manuel Alegre”. Mas faz uma ressalva: “Na pior das hipóteses – o cheque não ter sido descontado -, Manuel Alegre recebeu o pagamento por um trabalho literário.”

A campanha do BPP, concebida pela BBDO e na qual participaram Pacheco Pereira, Proença de Carvalho e João Cutileiro, entre outros, constituiu um dos elementos de prova incluídos nos processos judiciais movidos pelos clientes lesados do banco contra o Estado. Os antigos clientes pretendem assim provar que o Banco de Portugal e a Comissão de Mercados de Valores Mobiliários (CMVM) tinham conhecimento da venda de produtos de capital garantido que não estavam devidamente contabilizados no balanço e que, com a crise financeira, levaram o BPP à falência.

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