Quando o outro professor passa a ser um problema

"Anda meia escola a avaliar outra meia escola". É assim que Manuel Pereira, director do agrupamento de escolas de Cinfães, sintetiza o que se está a passar com a avaliação de desempenho docente. Com o novo modelo, que foi aprovado após o acordo de 8 de Janeiro, a avaliação deixou de ser feita pelos coordenadores de departamento para passar a ser realizada "entre pares, o que poderá "criar uma maior competitividade, mas no mau sentido", alerta Isabel Le Gué, directora da Escola Secundária Rainha D. Amélia.

As classificações de mérito, que são as que permitem uma progressão mais rápida, estão sujeitas a quotas e os avaliadores e avaliados podem ser concorrentes neste processo. "Em vez de partilharem materiais e estratégias, como tem sucedido até agora, receio que os professores comecem a olhar para o seu vizinho do lado como um problema", admite aquela directora. Fátima Gomes, que pertence à direcção da Escola Secundária de Barcelos, corrobora: "As relações entre os professores, que não têm hierarquias entre si, ficarão feridas pela sombra do avaliador e do avaliado. A escola vai perder aquilo que tinha de melhor - a dimensão humana".

Depois de constatar que muitas escolas não tinham meios para responder aos critérios definidos para a escolha dos avaliadores, agora designados relatores, o Ministério da Educação alterou em Novembro um dos princípios de base negociados com os sindicatos: desde que o aceite, um professor poderá agora ser avaliado por outro que esteja num escalão inferior ou mesmo em princípio de carreira, e que também não pertença ao seu grupo disciplinar. Para além de apreciarem o relatório de auto-avaliação, obrigatório, os relatores também procedem à observação das aulas. Este procedimento é obrigatório para o acesso a três dos 10 escalões da carreira docente e também para os professores que se queiram candidatar às classificações de Muito Bom e de Excelente.

"Têm sido nomeados relatores com os mais desvairados critérios e quase toda a gente está à espera para ver quando as coisas explodem", comenta Paulo Guinote, autor do blogue A Educação do Meu Umbigo. "Está a criar muita instabilidade e ainda só estamos no princípio", frisa Manuel Pereira. O Ministério Educação, que não respondeu ao PÚBLICO, tem afirmado que o processo está a correr normalmente. "É o oposto da política de verdade que as pessoas merecem", acusa Dias da Silva, da Federação Nacional dos Sindicatos de Educação. A Fenprof já solicitou a interrupção da avaliação em curso. C.V.

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