Papa criou agência financeira contra lavagem de dinheiro

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Bento XVI diz que apoia a luta contra o branqueamento de capitais VINCENZO PINTO/AFP

Autoridade de Informação Financeira permitirá que o Vaticano cumpra as normas da OCDE contra o branqueamento de capitais

O Papa Bento XVI criou ontem uma Autoridade de Informação Financeira (AIF) do Vaticano, que permitirá lutar contra o branqueamento de capitais e o financiamento do terrorismo. A decisão permite que o Vaticano cumpra as normas internacionais contra o branqueamento da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico) e GAFI (Grupo de Acção Financeira Internacional).

No documento, o Papa refere mes- mo que apoia o compromisso da comu- nidade internacional na prevenção e na luta contra aqueles fenómenos e que a Santa Sé "entende fazer suas" as regras das organizações internacionais sobre a matéria.

Esta medida acontece 30 anos depois do escândalo que atingiu o Instituto das Obras da Religião (IOR, o "banco" do Vaticano), nos anos 80.

Explicando o motu proprio que cria a AIF, o porta-voz do Vaticano afirmou, citado pelas agências, que o organismo "permitirá evitar no futuro es- ses erros que facilmente se tornam motivo de "escândalo" para a opinião pública e os fiéis". O padre Federico Lombardi acrescentou: "A Igreja será mais credível perante a comunidade internacional e os seus membros".

Em Setembro, o actual presidente do IOR, Ettore Gotti Tedeschi, e outro dirigente da instituição, foram colocados sob investigação, por violação de uma nova lei italiana antibranqueamento. Não são, no entanto, suspeitos de branqueamento. Lombardi recusa aliás a ligação entre esse facto e a nova lei, dizendo que ela já estava a ser preparada na sequência de uma convenção assinada entre o Vaticano e a União Europeia em 2009.

A nova agência poderá trocar in- informações com autoridades financeiras de diferentes países, so- bre operações suspeitas. A sua autori- abrange quer o IOR, quer a APSA, que gere património imobiliário do Vaticano, e está em relação com todos os organismos da Cúria Romana, o governo central do Papa.

O escândalo do IOR nos anos 1980 foi provocado pela falência do Banco Ambrosiano, do qual o banco do Va- ticano era o principal accionista. A investigação concluiu que o banco reciclava dinheiro da Máfia, em relação com a loja maçónica ilegal P2, que trabalharia para a CIA. Na ocasião, o Papa João Paulo II ordenou uma reformulação do IOR, mas o seu responsável, o arcebispo Paul Marcinkus, nunca foi afastado nem interrogado.