Desde pagar a imigrantes à autocaravana

António não esquece a última noite de passagem de ano. Enquanto os pais e os sogros faziam a contagem decrescente para a meia-noite de passas e copo de champanhe na mão, ele e a mulher tinham aberta a página de Internet do Colégio de Montemaior, em Loures. "Foi uma angústia... De repente, o portátil ia ficar sem bateria e a minha mulher não encontrava o carregador. Depois a página bloqueou, já era meia-noite e cinco quando fizemos a inscrição", conta o engenheiro. A filha entrou para o pré-escolar.

"Nos primeiros dez minutos caem 200 inscrições", revela Miguel Figueiredo, director do Montemaior. Um dos critérios de selecção é a ordem de entrada das matrículas, que começam à meia-noite do primeiro dia do ano. Não vale a pena ir à secretaria da escola, avisa o director.

Com seis anos de existência, o Montemaior não tem histórias de filas para contar, só de pais que dizem ter feito a inscrição mas que não têm comprovativo. O mesmo não acontece com o Colégio Luso-Francês, no Porto, ou o Valsassina, em Lisboa. Antes de abrirem as inscrições pela Internet, as passagens de ano de muitos pais foram passadas à porta desses colégios porque as pré-inscrições abriam no primeiro dia útil de Janeiro. Hoje, a Internet dá "melhores condições aos pais. Mais rapidez, mais comodidade e a ausência de filas ao portão, situação que nunca apreciámos", confessa João Valsassina.

Das filas ficam casos como o dos pais que alugaram uma autocaravana para passar várias noites à porta do Moderno, conta Isabel Soares. Ou dos que pagaram a imigrantes para marcar lugar. Ou das famílias que se revezaram durante a vigília, primeiro o avô, depois a tia e por fim a mãe. No Manuel Bernardes, os pais nunca foram aconselhados a passar a noite, diz Ludovico Mendonça, secretário- geral do colégio lisboeta. "É um risco, podem ser assaltados. Seguem o meu conselho e vêm só de manhã, basta chegar às seis". Na próxima quinta-feira, Mendonça chegará às sete para não fazer esperar ninguém.

Hoje, as histórias nascem à frente do computador. Depois de fazerem a inscrição, há pais que imprimem o documento e o enviam por fax ou telefonam para confirmar a recepção, conta Margarida Mota Amador, directora do Sagrado Coração de Maria.

O PÚBLICO contactou ainda os colégios Luso-Britânico, em Lisboa; o dos Órfãos do Porto, o Grande Colégio Universal e o Jardim Escola João de Deus, no Porto. Neste último, as pré-inscrições começam segunda-feira e o director António Pinheiro apela a que os pais cheguem um pouco antes das oito da manhã, mas que não vão para lá de madrugada. "Não se justifica." B.W.