A Igreja sabe o que quer?

O que quer a Igreja Católica? Quando se preparam mudanças no episcopado, a pergunta é legítima. Tanto mais que pode haver escolhas que traduzem mais a manutenção de uma atitude de fechamento da instituição sobre si mesma do que a necessária abertura decisiva à modernidade.

Há uma questão prévia a este facto: a nula participação das comunidades locais na escolha dos bispos. A hierarquia católica argumenta que a Igreja não é uma democracia. Nos primeiros tempos do cristianismo, muitos foram os bispos eleitos pelas comunidades: é célebre a história de que, em Milão, Ambrósio foi escolhido para bispo pela capacidade para mediar divergências entre facções, mesmo antes de ser baptizado; esse homem veio a ser o grande Santo Ambrósio, responsável pelo baptismo de Santo Agostinho. Foi nos conventos que se consolidou a ideia de "um homem, um voto". E muitos cristãos sentem-se diminuídos na sua cidadania eclesial, quando confrontada com a que experimentam na sociedade civil.

Voltemos à pergunta: a Igreja sabe o que quer? Nos últimos 30 anos, o catolicismo português teve dinâmicas tão diversas quanto congressos de leigos, sínodos diocesanos, pastoral do domingo, reabilitação das semanas sociais, pastoral da fé... Dessas iniciativas ficaram pouco mais do que listas de conclusões - muitas das quais pouco realistas e inconsequentes. Pior: não se fez, depois, a avaliação do caminho (não) percorrido em relação ao que se propunha. Mesmo sabendo-se que, em Portugal, não há hábitos de planeamento nem avaliação sérios (e não falo da moda que anda por aí).

O que quer a hierarquia católica para, por exemplo, daqui a dez anos? Mais pessoas nas missas? Menos leis que "atentam" contra a moral oficial? Mais casamentos e baptismos católicos? Contribuir para uma sociedade mais justa e fraterna, mesmo que com uma prática religiosa mais ténue? Ou...?

Provavelmente, poucos bispos, padres e responsáveis de grupos, movimentos ou instituições católicas saberiam responder com objectivos concretos a estas perguntas. Provavelmente, o mais espantoso da resposta a estas perguntas seria a ausência de respostas.

Na maior parte dos casos, o catolicismo português limita-se à repetição de respostas com décadas (quando não de séculos) que já pouco sentido têm. Seja em campos como a liturgia (onde predomina uma indigência que só afugenta), a moral (onde as pessoas não querem saber de regras que já não respondem às suas perguntas) ou a capacidade de intervenção social (por vezes presa de compromissos com poderes fácticos), entre outros.

Há meio ano, quando o Papa estava para aterrar em Lisboa, o bispo Carlos Azevedo dizia no PÚBLICO que a Igreja Católica em Portugal continua a ser predominantemente clerical, centralizada e sem um projecto mobilizador, numa sociedade em profunda mutação.

Esse é um dos aspectos fulcrais do problema: apesar de uma vasta e meritória acção no campo social; apesar de ter dado passos de gigante na valorização da cultura, o catolicismo português é intelectualmente pobre e não entende as mudanças sociais que atravessam a sociedade. Não é de estranhar que haja tão poucos nomes reconhecidos e inovadores na teologia católica portuguesa.

Ao mesmo tempo, a estrutura eclesial continua a ser predominantemente... eclesiástica. Ou seja, em lugar de se privilegiar a dimensão comunitária proposta pelos documentos e pela herança espiritual do Concílio Vaticano II, acentua-se a vertente hierárquica.

Basta ver que a aposta nas mesmas estratégias e dinâmicas nem sequer tem dado resultados na lógica de manutenção do que se tem feito. Por isso, o catolicismo português confronta-se com a questão: ou muda ou definha. 2011 será uma oportunidade?