Dez figuras portuguesas que marcaram o ano

O treinador André Villas-Boas

A imprensa internacional fala num "mini-Mourinho que segue os passos do seu mentor"
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A imprensa internacional fala num "mini-Mourinho que segue os passos do seu mentor" Rafael Marchante/Reuters

Foi os olhos e os ouvidos de Mourinho, com quem tem muito em comum apesar do choque entre duas personalidades parecidas. Com ele, o FC Porto vive uma época excepcional

Quem é

O treinador mais jovem da liga portuguesa é também o mais aristocrata. Nasceu a 17 de Outubro de 1977 (33 anos) e é bisneto de José Gerardo Coelho Vieira Pinto do Vale Peixoto de Villas-Boas, o 1.º visconde de Guilhomil, título criado pelo rei D. Carlos I, em 1890. André Villas-Boas é hoje o técnico da moda em Portugal muito à custa do seu inglês very british, uma influência da avó proveniente de uma família inglesa. Porque foi a fonética perfeita que o ajudou a cair nas boas graças de Bobby Robson, quando, a meio da década de 90, o interpelou no elevador do prédio em quem ambos viviam. "Mister, porque não joga o Domingos?", disparou, insatisfeito por o seu ídolo dos relvados ser suplente de Vinha. A argumentação do jovem André foi sustentada numa estatística que também impressionou o britânico. A partir daí, Robson passou a entrar nas conferências de imprensa com um papelzinho na mão e a debitar o número de cantos, remates, ataques, etc., dos jogos terminados há minutos. Só algum tempo mais tarde se descobriu que estava a aproveitar o trabalho estatístico do seu vizinho de 16 anos.

O que fez?

Concluído o 12.º ano, esqueceu o curso de Letras, preferindo seguir o conselho de Robson e especializar-se em futebol. Uma recomendação do britânico valeu-lhe um curso em Inglaterra e uma outra de José Mourinho (então ainda adjunto) permitiu-lhe participar numa acção de formação da UEFA. Começou a trabalhar nos escalões de formação do FC Porto, mas não tardou a tornar-se director técnico das Ilhas Virgens Britânicas (chegou a seleccionador), escondendo sempre que só tinha 21 anos. "Só lhes disse quando vim embora." Após 18 meses no Caribe, Mourinho lembrou-se dele quando formou a equipa técnica com que iria levar o FC Porto à conquista da Champions e de tudo o mais o que havia para ganhar. André tinha uma missão específica: analisar os adversários e os potenciais reforços. Dois anos depois, Mourinho reconheceu o mérito dos seus relatórios estendendo-lhe o convite de Abramovich para ir domar o Chelsea, que não ganhava o título inglês há 50 anos. Em 2004, o special one apresentou ao The Independent o seu colaborador mais jovem (André tinha então 26 anos): "Ele é os meus olhos e os meus ouvidos no campo rival." A ligação prosseguiu em Itália, mas nem o sucesso do Inter de Milão servia para disfarçar a tensão entre Mourinho e André, que revelou a vontade de se emancipar. A relação seguia desgastada até pelo choque de duas personalidades demasiado parecidas quando, a 13 de Outubro de 2009, aceitou o convite da Académica. Aos 31 anos trocou o clube que se iria tornar campeão europeu pelo último da Liga portuguesa. Dois meses depois, esteve perto de se tornar treinador do Sporting, que voltou à carga em Abril. Mas o pacto foi rasgado por mútuo acordo. André, que antes havia apelidado de "palhaçada" a hipótese de seguir para Alvalade, rotulou de "fantochada" as notícias que explicavam a sua mudança de rumo com um convite de Pinto da Costa para substituir Jesualdo Ferreira. A 2 de Junho de 2010 foi apresentado no Dragão.

Por que o escolhemos?

O FC Porto teve o melhor arranque de época dos últimos 25 anos, superou mesmo o primeiro semestre de Mourinho no Dragão, tem a melhor defesa da Europa e é a única equipa invencível até ao momento na Europa. Oito pontos de vantagem na Liga devem ser suficientes para que Villas-Boas celebre o seu primeiro título nacional - ninguém acredita numa hecatombe portista de que não há memória. A sua carreira ficará para sempre marcada pelo primeiro jogo oficial ao serviço dos portistas. Mais do que a vitória na Supertaça, o jogo serviu para minar a confiança de um Benfica que se achava e era tido quase por imbatível. No FC Porto, não demorou muito a criar uma equipa ainda com mais estilo e ambição e com um vigor juvenil e uma alma que contagia. E foi construído com a herança que lhe foi deixada por Jesualdo - João Moutinho é a única novidade nos titulares -, mantendo-se o sistema táctico e até a defesa zonal nos lances de bola parada. A diferença é que os adeptos saem mais satisfeitos, porque sabe sempre melhor ganhar com um futebol feito de posse e circulação de bola.

O que podemos esperar dele?

A imprensa internacional fala num "mini-Mourinho que segue os passos do seu mentor". A referência não agrada a Villas-Boas (por razões futebolísticas, mas não só...). Villas-Boas garante que Robson é, e será sempre, o seu modelo. Mas há, de facto, demasiados pontos de contacto com o special one. E que não resultam apenas dos cinco anos de contágio, da barba de dois dias e do início de carreira também polémico. Porque a pose ufana, o discurso ensaiado, cortante e desinibido, o trabalho metódico e a capacidade de correr riscos trazem, de facto, muitas recordações, não importando para o caso se na versão two ou three. A imprensa italiana já diz, por exemplo, que o milionário Mássimo Moratti o tem debaixo de olho para o Inter de Milão. Villas-Boas é portista de coração e diz que está no lugar com que sempre sonhou. Mas, mais cedo ou mais tarde, irá partir para tentar provar noutras paragens que também é especial.