Grandes nomes da cultura e ciência cerram fileiras pelo Hospital Miguel Bombarda

Pavilhão de segurança do hospital está em vias de classificação
PEDRO CUNHA
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Pavilhão de segurança do hospital está em vias de classificação PEDRO CUNHA

Arquivo médico e acervo de obras artísticas feitas pelos doentes mentais pode estar em risco, temem os signatários de um apelo que será entregue hoje às ministras da Saúde e da Cultura

Um apelo em defesa do património edificado e do arquivo do Hospital Miguel Bombarda em Lisboa é hoje entregue às ministras da Saúde e da Cultura. A pintora Paula Rego e o investigador de neurociências António Damásio são algumas das figuras que dão a cara por esta causa.

O hospital encerra no final do ano. O destino dos seus edifícios mais notáveis, considerados únicos, e também das obras de arte produzidas pelos seus doentes no último século, expostas num museu criado no local, está a preocupar grandes figuras da cultura portuguesa, como António Lobo Antunes, Júlio Pomar ou Joana Vasconcelos, entre outros.

Além de um vasto arquivo médico - que inclui um espólio fotográfico -, o museu dispõe da maior e mais antiga colecção de pintura de doentes do país. Desenvolvida por autodidactas, a chamada outsider art, ou arte crua, é um género reconhecido internacionalmente. "O encerramento do hospital coloca em perigo imediato a existência deste notável museu, dado que a senhora ministra da Saúde não garantiu até agora a sua continuidade", refere o apelo, assinado também pelos sociólogos António Barreto e Maria Filomena Mónica. "A gravidade da situação é acrescida neste momento, com a decisão de destruir a parte antiga dos arquivos, incluindo processos clínicos e documentos desde o séc. XIX - o que configura uma perda irreparável."

"Nebuloso", diz Simonetta

A unidade museológica está instalada no panóptico, um edifício circular único em Portugal e em vias de classificação patrimonial - o Pavilhão de Segurança, um imóvel de 1896 com um pátio descoberto, para beneficiar o estado mental dos pacientes e evitar a transmissão de doenças. "Penso que na Europa só haverá mais três edifícios deste tipo", explica a primeira signatária do documento, a presidente da Assembleia Municipal de Lisboa, Simonetta Luz Afonso.

Outro edifício de relevo, e igualmente em vias de classificação como imóvel de interesse público, é o balneário de D. Maria II. O hospital pertence neste momento à Estamo, empresa pública que tem como função vender património do Estado, e que é também proprietária dos hospitais do Desterro, de Santa Marta, de S. José e dos Capuchos. A Estamo entregou já na Câmara de Lisboa um estudo prévio do atelier de arquitectura Belém Lima que prevê a transformação do edifício principal, um antigo convento, em apartamentos, escritórios e lojas. O estudo prevê a "reconversão" dos dois edifícios em vias de classificação.

Para os subscritores do apelo, o encerramento do Miguel Bombarda, nas imediações do Campo de Santana, pode constituir uma oportunidade única para expandir o museu - ideia que garantem não ser incompatível com a prevista urbanização da maioria dos quatro hectares de terreno.

"Portugal, a cidade de Lisboa, a arte e a ciência têm muito a ganhar com a existência de um museu identitário e de prestígio, dedicado à outsider art e às neurociências", argumentam. Custaria apenas uma ínfima parcela dos 25 milhões de euros pelos quais os terrenos foram vendidos, calculam. E as obras ainda poderiam ser comparticipadas pela União Europeia.

Na opinião de Simonetta Luz Afonso, tal como para a especialista em história de arte Raquel Henriques da Silva, o mais inquietante é a falta de esclarecimentos por parte da tutela. "Há uma nebulosidade à volta deste assunto que queremos clarificar", diz a primeira.

E também não foi ainda desta vez que o Ministério da Saúde esclareceu a questão. Apesar de as preocupações levantadas no apelo não serem uma novidade - já haviam sido transmitidas antes à tutela e também à direcção do hospital por outras pessoas empenhadas na preservação do museu e dos imóveis -, uma porta-voz do Ministério da Saúde alegou ontem ao PÚBLICO que, à hora a que foi questionada, às 18h, "não foi possível responder".