Crítica

Triunfo da forma

Numa colaboração com a Orquestra Jazz de Matosinhos, o guitarrista Kurt Rosenwinkel grava uma das suas melhores prestações de sempre

Nas notas que acompanham o disco, a Orquestra Jazz de Matosinhos (OJM) agradece a mistura "mágica" efectuada por James Farber. Sendo verdade que raramente se ouviu a guitarra de Rosenwinkel de forma tão clara e poderosa, envolvida de forma perfeita pelos tons e nuances da orquestra, é também verdade que essa magia tem origem na música gravada, nas excelentes composições de Rosenwinkel e, sobretudo, no surpreendente brilho e eficácia dos arranjos. Dando continuidade a uma colaboração que dura já há alguns anos, o norte-americano Kurt Rosenwinkel, um dos guitarristas mais influentes e copiados de sempre, une-se à OJM para regravar sete das suas conhecidas composições. Surpreendentemente, Rosenwinkel confiou a sensível e exigente tarefa dos arranjos a Carlos Azevedo (responsável pela parte de leão, com 4 dos temas), Pedro Guedes e Ohad Talmor, factor que acabou por se revelar determinante para o sucesso do projecto - pelo novo fôlego dado às improvisações do líder e pelas novas "cores" que potenciam na sua música. Fundindo o classicismo de Thad Jones ou Bob Brookmeyer com os tons impressionistas de Gil Evans ou George Russell (mais os primeiros que os segundos), os arranjos de "Our Secret World" são, juntamente com a guitarra caleidoscópica de Rosenwinkel, as grandes estrelas do disco. A profunda empatia entre o guitarrista e a big band e a relação simbiótica entre composição e arranjos é de imediato visível no início do disco, com o tema título (já gravado anteriormente no álbum "Heartcore") a receber um tratamento exuberante de timbres e dinâmicas - destaque para o belíssimo trabalho dos sopros - e a inspirar um solo de Rosenwinkel de cortar a respiração. Num álbum totalmente desaconselhado a quem não gosta de guitarra jazz "a la Metheny" (ela está por todo o lado), e cuja única desilusão é a quase total inexistência de solos por parte dos restantes elementos da orquestra, o mesmo se repete, canção após canção - solos de guitarra fortíssimos e ambientes sofisticados cujos arranjos não cessam de nos surpreender com pequenos detalhes (destaques para "The cloister" e "Use of light").