Há quem insista em fazer das ilhas um melhor lugar para viver

São casas pequeníssimas, espaços quase sempre de pobreza generalizada. Uns davam tudo para sair de lá, outros garantem que isso seria matá-los. Para estes, a requalificação tem sido uma aposta: pintam paredes, fazem segundos andares, constroem casas de banho. No Porto, 20 mil a 30 mil pessoas moram em ilhas. Mariana Correia Pinto(texto) e Paulo Pimenta(fotos)

Talvez Rosalina Baptista, residente numa ilha do Porto há 81 anos, tenha razão. Talvez as ilhas sejam o mal menor de um grande mal que se chama fraca habitação social, de um grande mal que se chama pobreza e que se estende rua sim rua sim em muitas zonas da cidade do Porto. Ela faz parte do grupo dos "na ilha até que a morte nos separe", faz parte do grupo que se tem esforçado para tornar as ilhas do Porto num sítio mais habitável, menos pobre e, porque não dizê-lo, mais bonito.

Diz-se ilhas e pensa-se em casas pequeníssimas, com uma entrada comum da rua, pensa-se em espaços pobres. Diz-se ilhas e fala-se em habitações que nem sempre têm casa de banho própria, fala-se de quatro paredes a rodear pouco mais de um metro quadrado com um buraco no chão (a isto também se chama casa de banho). Nada disto deixou de existir no Porto do século XXI. Mas há coisas que mudaram - à força do esforço dos moradores que, ano após ano, repetem obras e melhoram as casas.

Rosalina já perdeu a conta ao número de vezes em que pintou a sua: cor-de-laranja, verde-escuro, verde-claro, verde-tropa. Quando lá chegou, "nem água e luz havia". Depois foi melhorando: hoje tem água e luz, tem um telhado novo, tem soalho e, um dia destes, há-de tirar o papel de parede do quarto e pôr-lhe "uma tinta em modos". Como ela, muitas pessoas têm optado por esta estratégia de requalificação das ilhas, mesmo quando os habitantes não são mais do que simples inquilinos. "Dantes, as ilhas eram conotadas com o cancro da cidade, agora começa a ser um pouco diferente. Há uma dinâmica de recuperação nas ilhas do Porto", analisa Fernando Matos Rodrigues, antropólogo e docente na Escola Superior Artística do Porto (ESAP).

É nisso que José e Isabel Costa acreditam - que as ilhas são "um bom sítio para se viver". Chegaram ao número 58 da Travessa da Estação, em Campanhã, "há uns vinte e tal anos" e não querem mais sair de lá ("Nem que me pagassem", garante o dono), sobretudo agora, que "o doutor Pinto [assistente social da Junta de Freguesia de Campanhã] ajudou a arranjar o telhado". Do pátio fizeram uma sala extra, num pequeno espaço inventaram uma casa de banho, meteram tectos falsos, pintaram e repintaram, por dentro e por fora. Reinventaram a casa. Sorriem orgulhosos enquanto mostram o que têm. "Somos felizes aqui e sabemos que temos que nos sujeitar ao que vai aparecendo, que já é muito bom", vai dizendo Isabel Costa. E o que têm, além da casa, é uma "vizinhança que é como família, aquela a quem se pede o açúcar e o arroz emprestado, que ajuda em tudo". É esta - a relação privilegiada entre vizinhos - uma das grandes bandeiras de quem defende a aposta na requalificação das ilhas da cidade: "É a primeira grande diferença face aos bairros sociais, que não são mais do que ilhas ao alto, que muito facilmente se tornam "guetizantes", e em que o contacto é naturalmente menos facilitado", acredita Jorge Ricardo Pinto, geógrafo e estudioso deste fenómeno no Porto.

Tirem-me daqui

Joaquina Pimenta não concorda. Duas casas à frente, na mesma ilha de Rosalina Baptista, na Rua do Doutor Maurício Esteves Pereira Pinto, leva as mãos à cabeça quando lhe perguntam o que acha das ilhas: "Só queria que me tirassem daqui, ia para qualquer lado". Chegou àquela casa há doze anos e paga 66 euros de renda - "uma exorbitância", diz. É que a casa mete água pelo telhado, tem buracos nas paredes, humidade, tem a frente em mau estado, não tem casa de banho (tem, no exterior, o tal buraco a que dão esse nome).

O senhorio "nem uma telha põe" e ela vai arranjando conforme pode, quando pode - mas pode pouco. Garante que, no dia em que sair da casa, leva tudo com ela ("Era uma casa negra, sem nada dentro, tudo o que cá está é meu"), e é com esse dia que sonha à noite, antes da dose de calmantes que toma para conseguir dormir. Arriscaria tudo - "Ia para o Lagarteiro ou para o Monte da Bela" - e não quer saber do que dizem sobre os bairros: "Quem faz mal aos espaços são as pessoas, o bairro não é mau por ser bairro, só é mau se as pessoas forem más".

O geógrafo Jorge Ricardo Pinto não está totalmente em desacordo: "É óbvio que, mais do que o desenho arquitectónico, o que define os espaços são as pessoas, mas a verdade é que a dimensão identitária que caracteriza boa parte das ilhas não existe nos bairros sociais", acrescenta. O geógrafo fala com conhecimento de causa: além de estudioso empenhado no assunto, passou grande parte da infância em ilhas - "Metade da minha família viveu nas ilhas do Porto desde o século XIX e a outra metade promoveu o seu desenvolvimento" - e ainda hoje se passeia por lá (os pais e avô continuam a viver em ilhas).

"No Estado Novo, uma em cada três ilhas da cidade foi abaixo e isso fez com que ficasse espaço vago", relembra. Foi por essa altura que as casas começaram a crescer - para os lados, para os corredores até então comunitários, para cima - e que as casas de banho privadas começaram a aparecer. No Porto, segundo o último estudo que a autarquia disponibilizou, há 10 anos, há 1182 ilhas, com 8678 fogos. E há entre 20 mil e 30 mil pessoas a viver nelas.

Terra de ninguém

São números redondos que não seriam um problema se as ilhas fossem qualificadas, defende Matos Rodrigues, que vai apresentar no início do ano um estudo sobre as ilhas enquanto espaços sustentáveis. "Era preciso fazer das ilhas um património, como se fez em Sevilha e em Barcelona, por exemplo. Basta juntar duas casas para ficarmos com aquilo que, em Roma ou em Milão, é um estúdio capaz de receber um estudante ou um empresário".

O grande problema das ilhas é que, "do ponto de vista legal, não existem", explica Matos Rodrigues. O que existe é a "casa senhorial à face da rua", tudo o que está para trás, escondido, é "clandestino". É também esse "processo de apropriação espontânea" que caracteriza as ilhas. Por isso, diz o antropólogo, "os técnicos da Câmara Municipal do Porto não gostam das ilhas, porque fogem ao que é burocrático, e podem perfeitamente fechar os olhos a isto". São, na verdade, "espaços em transformação permanente", acrescenta Jorge Ricardo Pinto, uma espécie de "terra de ninguém" onde o morador vai fazendo aquilo que lhe dá jeito - um anexo, uma casa de banho, mais um andar. "Tudo é possível, porque nada é fiscalizado", diz.

A população das ilhas é, maioritariamente, idosa, à semelhança, aliás, do que acontece um pouco por todo o centro histórico do Porto. Nos últimos anos, tem também crescido o número de emigrantes, "de Leste e do Brasil, sobretudo", fenómeno que, "apesar de ainda ser residual, tem tendência para aumentar", antecipa Ricardo Jorge Pinto. Mas este público podia alargar: "Os jovens que fugiram para a periferia têm mostrado vontade de regressar ao Porto e as ilhas seriam um espaço privilegiado para os receber, ou para construir residências estudantis", acredita.

Mais do que o problema arquitectónico, é contra um "estigma enraizado" que se trava a grande luta, quando se fala de ilhas, diz o antropólogo Fernando Matos Rodrigues. Há a pobreza e a miséria, sim. Mas há também um sentido de comunidade raro que pode ser toque mágico de varinha na minimização de problemas, dizem. Talvez por ele as ilhas continuem a ser capazes de atrair moradores.

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