Escolhas 10 livros para este Natal

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pedro cunha

Escolher é sempre complicado. Para lhe dar uma ajuda, esta semana o P2 faz-lhe, todos os dias, dez sugestões de presentes culturais. Isabel Coutinho seleccionou romances que receberam prémios ou títulos de autores que não publicavam há muitos anos, biografias que nos mostram o outro lado de políticos e escritores, um livro de História e a nova obra do Nobel da Literatura 2010. Todos editados em Portugal durante este ano

1. Mandela íntimo

Em 2004, o ex-Presidente da África do Sul, Nelson Mandela, começou a doar o seu arquivo pessoal ao Centro de Memória e Diálogo da Fundação Mandela. O livro, Arquivo Íntimo, nasceu desse gesto e pretende dar a conhecer aos leitores o homem por trás da figura pública - "escrevendo e falando em privado, dirigindo-se a si próprio ou aos seus confidentes" -, como escreve na introdução Verne Harris, do Centro de Memória. Com vários documentos inéditos, esta obra tem cartas da prisão (1969-1971, enviadas ou retidas pela censura), transcrições de conversas gravadas com os amigos, apontamentos que fazia em blocos de notas e calendários, e o rascunho de uma sequela inacabada de Longo Caminho para a Liberdade, a sua autobiografia.

"A história contida neste livro - e a história que a vida de Mandela nos conta - não é uma história de seres humanos infalíveis e de triunfo inevitável. É a história de um homem que se dispôs a arriscar a própria vida por aquilo em que acreditava, e que se esforçou verdadeiramente por levar o tipo de vida que acabaria por fazer do mundo um lugar melhor", escreve no prefácio o Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama.

Arquivo Íntimo

Nelson Mandela

Prefácio de Barack Obama

Objectiva

24,90?

2. O século XX condensado por Gilbert

O historiador britânico Martin Gilbert diz na introdução deste livro que "alguns dos maiores feitos da humanidade tiveram lugar no século XX, e alguns dos seus piores excessos também. Foi um século de progressos na qualidade de vida de milhões de pessoas, mas também um século de declínio em muitas regiões do globo". Neste livro percebemos melhor a Revolução Russa de 1917, a ascensão de Hitler ao poder, o reinado e a morte de Estaline ou Mao Tse-tung, a largada das bombas atómicas sobre Hiroxima e Nagasáqui, o assassínio do Presidente Kennedy, a Guerra do Vietname e a ida do homem à Lua. Os capítulos estão divididos por décadas e terminam em 1999. É um livro de consulta, que condensa os três volumes dedicados ao século XX que o historiador publicou no final dos anos 90, escrito pelo biógrafo oficial de Winston Churchil, mais conhecido pela obra Churchill: Uma Vida.

História do Século XX

Martin Gilbert

Dom Quixote

33?

3. A biografia política de Salazar

É a primeira biografia académica de António de Oliveira Salazar, 40 anos depois da sua morte, 15 anos depois da abertura ao público do seu arquivo. Foi escrita em inglês por Filipe Ribeiro de Meneses, um historiador português radicado em Dublin (o título original é Salazar - A Political Biography, ed. Enigma Books), depois de sete anos de investigação.

"Meneses não cai nas numerosas armadilhas que frequentemente afectam a escrita biográfica. Com um estilo claro e incisivo, escreve como um historiador rigoroso, expondo factos, explicando contextos e tentando compreender as lógicas das acções do biografado. Não propõe à partida uma tese sobre Salazar, as suas intenções e o seu lugar na história de Portugal. O livro não é uma defesa do ditador escrita à pressa. Não é um requisitório", escreveu sobre a obra no Ípsilon Victor Pereira, historiador e professor na Université de Pau et des Pays de l"Adour, França. O livro começa assim: "Salazar é caso único entre os "grandes ditadores" do século XX na medida em que o seu protagonismo público decorreu do seu mérito académico."

Salazar - Biografia Política

Filipe Ribeiro de Meneses

Dom Quixote

37?

4. Descobrir Clarice

A tarefa não era fácil. Como disse Orhan Pamuk, Clarice Lispector é uma das escritoras mais misteriosas do século XX, mas Benjamin Moser conseguiu desvendar parte desse mistério. Este norte-americano descobriu a obra da escritora brasileira quando resolveu apreender Português e foi fazer o curso de Literatura Brasileira na Universidade de Brown, EUA. Nessa altura leu A Hora da Estrela, ficou apaixonado pela obra e a sua autora passou a ser objecto de estudo. O cronista da Harper"s Magazine e colaborador da New York Review of Books passou os últimos cinco anos a trabalhar naquela que é a primeira biografia de um escritor brasileiro escrita por um autor de língua inglesa : Clarice Lispector - Uma Vida. Quando foi lançado nos Estados Unidos, em 2009, foi considerado um dos melhores livros do ano pelos jornais The New York Times e Los Angeles Times e o mesmo aconteceu no Brasil. Uma das novidades é que Moser foi à Ucrânia, onde Clarice Lispector nasceu, e descobriu aspectos menos conhecidos da vida da escritora e da sua família. Esta biografia lê-se como um romance.

Clarice Lispector - Uma Vida

Benjamin Moser

Civilização

20,99?

5. Sontag por ela própria

Este é o primeiro de três volumes dos diários de Susan Sontag (1953-2004) que o seu filho, David Rieff, organizou e publicou. O livro começa com os anos da faculdade e as primeiras experiências ficcionais de uma das intelectuais mais influentes da América do pós-guerra, e termina em 1963. "A única conversa que tive com a minha mãe sobre os cadernos foi logo quando ela adoeceu e não acreditava ainda que haveria de sobreviver a este cancro sanguíneo como tinha feito com dois cancros anteriores. E consistiu numa única frase sussurrada: "Sabes onde estão os diários." Não me disse nada sobre o que queria que eu fizesse com eles", explica Rieff no prefácio. "Quando paramos de ler e pomos o livro de lado, marcamos a página para poder continuar a leitura exactamente no mesmo lugar quando pegarmos novamente no livro. Também quando se está a fazer amor e se pára por um momento (para fazer chichi ou para tirar a roupa) é preciso tomar nota exacta de onde se estava para que se possa retomar no mesmo ponto momentos depois. Então é preciso observar com muito cuidado para ver se funciona, porque às vezes - mesmo após a mais breve das pausas - é necessário começar tudo de novo", é uma das entradas deste diário (23/08/1961).

Renascer

Diários e Apontamentos 1947-1963

Susan Sontag

Quetzal

18,13?

6. A magia de Salman Rushdie

Nos anos 90, quando era perseguido, Salman Rushdie escreveu um livro para o seu filho mais velho - Harun e o Mar de Histórias. Nos últimos anos, o seu filho mais novo, Milan, pediu-lhe que também escrevesse um livro para ele. "Onde está o meu livro?", perguntou-lhe um dia. E havia duas respostas que Rushdie podia dar para esta pergunta: "Uma era dizer-lhe que a vida é injusta, que é a resposta verdadeira, mas não é a resposta boa. A outra era escrever um livro para ele." E assim nasceu Luka e o Fogo da Vida, que retoma as personagens do livro anterior e que foi publicado este ano. O pai de um rapaz chamado Luka, um contador de histórias, mergulha num sono profundo e o filho, que tem dois animais de estimação - um urso chamado Cão e um cão chamado Urso -, tem de o salvar de se sumir por completo. Por aqui passam um circo e muitos feitiços e fantasia.

Luka e o Fogo da Vida

Salman Rushdie

Dom Quixote

16,50?

7. A epopeia de Gonçalo

José Saramago dizia que, na produção novelesca nacional, "há um antes e um depois" de Gonçalo M. Tavares. Neste final de ano, Gonçalo M. Tavares recebeu o Prémio do Melhor Livro Estrangeiro em França pela edição francesa do romance Aprender a Rezar na Era da Técnica (na tradução de Dominique Nédellec). O livro já havia sido um dos cinco finalistas dos prémios franceses Fémina e Médicis. Em Portugal, chegaram recentemente às livrarias três livros do escritor: O Senhor Eliot e as conferências (ed. Caminho) - o décimo livro de O Bairro; Matteo Perdeu o Emprego (Porto Editora) - um livro de histórias curtas com um posfácio e cujas personagens têm nomes retirados de um trabalho do fotógrafo Daniel Blaufuks; e, por fim, Uma Viagem à Índia (ed. Caminho), um romance em verso que parodia Os Lusíadas. O texto está dividido em cantos, estrofes e versos e retoma a noção da epopeia com um protagonista que dá pelo nome de Bloom. O livro tem um prefácio de Eduardo Lourenço, em que o ensaísta afirma que Uma Viagem à Índia "navega e vive entre os ecos de mil textos-objectos do nosso imaginário de leitores. Como todos os grandes livros [...]."

Uma Viagem à Índia

Gonçalo M. Tavares

Caminho

22,50?

8. A Lisboa de Rui Cardoso Martins

O ponto de partida para o segundo romance de Rui Cardoso Martins é uma grande chuvada em Lisboa.

Tudo começa quando um advogado cego e um miúdo de oito anos são arrastados para um tubo de esgoto e contam histórias um ao outro."Num incrível tour de force, o romancista mantém-nos presos nesse cano gigantesco até ao fim, quase sem luz, às apalpadelas, encontrando apenas ratos, dejectos e ossadas. É um pesadelo descrito com uma precisão de linguagem que ajuda a manter intacta a claustrofobia. Engolidos pela terra, cheios de fome, frio e medo, os dois acidentais companheiros contam histórias para se manterem vivos: "[...] o que os podia guiar no espaço e no tempo, e dar-lhes forças, enormes e incomparáveis com qualquer desafio recente que se lhes colocara, era a narrativa"", escreveu o crítico literário Pedro Mexia sobre esta obra que recebeu o Grande Prémio de Romance e Novela Associação Portuguesa de Escritores.

Deixem Passar o Homem Invisível

Rui Cardoso Martins

Dom Quixote

16,15?

9. O último grande poeta brasileiro

"Se não há espanto, não escrevo", diz o "último grande poeta brasileiro" José Ribamar Ferreira, mais conhecido por Ferreira Gullar. Prémio Camões 2010, fez 80 anos a 10 de Setembro e rompeu um silêncio poético de 11 anos. EmAlguma Parte Alguma é um livro de poemas que começou a escrever em 2000. A sua obra completa está a ser editada em Portugal pelo grupo Babel, que, além do famoso Poema sujo, escrito em Buenos Aires, de Maio a Outubro de 1975, quando Gullar estava no exílio, publicou também recentemente Rabo de Foguete (1998), as suas memórias do exílio. Fica aqui o poema O que se foi: "O que se foi se foi./ Se algo ainda perdura/ é só a amarga marca/ na paisagem escura. // se o que se foi regressa,/ traz um erro fatal:/ falta-lhe simplesmente/ ser real.// Portanto, o que se foi,/ se volta, é feito morte.// Então por que me faz/ o coração bater tão forte?"

Em Alguma Parte Alguma

Ferreira Gullar

Ulisseia

18?

10. A história de Roger Casement

Em Outubro, foi-lhe atribuído o Prémio Nobel da Literatura 2010 e, em Novembro, Mario Vargas Llosa lançou o romance O Sonho do Celta que se baseia na vida de Roger Casement, cônsul britânico no Congo Belga no início do século XX, anticolonialista e defensor dos direitos humanos e das culturas indígenas. Amigo de Joseph Conrad (guiou-o numa viagem pelo rio Congo), durante duas décadas denunciou as atrocidades do regime colonial e foi defensor dos direitos humanos na Amazónia peruana. Casement foi executado por motivos políticos quando, no final da vida, de regresso à Irlanda, se tornou nacionalista. "Llosa não se limitou a contar essa trama fantástica, mas enriqueceu o relato com detalhes, não deixando de tocar em temas sensíveis, como o nacionalismo e a homossexualidade de Casement", disse a sua editora em Espanha, a colombiana Pilar Reyes, na última Feira de Frankfurt.

O Sonho do Celta

Mario Vargas Llosa

Quetzal

18,95?