Lura

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Lura, 35 anos, cantora enric vives-rubio

Tenho descoberto ultimamente que os homens são mais sensíveis do que tentam mostrar. Em alguns aspectos são mais frágeis. Por exemplo, quando estão doentes, são uns mariquinhas e ai de nós que digamos "está tudo bem, isso passa". Mesmo quando são crescidos e machistas, pedem os carinhos da mamã.

O homem tem a força física e a mulher tem a força intelectual, psicológica. Nós podemos mover um objecto só com o olhar. Eles gostam de pensar que são os chefes de família, mas quem dá a volta às questões e organiza as coisas somos nós. Estou a falar a nível geral, porque existem homens muito completos.

Em Cabo Verde existe a poligamia, infelizmente. Eu não aceito isso. Quando tenho um relacionamento com um homem, quero companhia, um amigo para conversar, para ir aos lugares, para trocar impressões, sentimentos, para chorar, cantar, rir, para estarmos juntos. Somos uma equipa. Se existe outra mulher, qualquer coisa não funciona bem. A partir do momento em que há um compromisso e intimidade, é só comigo.

O português também é capaz de ter outras mulheres, mas o cabo-verdiano acha que pode fazê-lo, que é mais homem, dificilmente larga a esposa, prefere ficar com as duas. Não sei que piada isso tem, que força isso lhe dá, mas há muitos homens, sobretudo de uma classe social elevada, que acham que podem ter duas casas e duas famílias. É uma vida falsa, de ostentação, para o homem se sentir realizado. Talvez porque coloca o sexo à frente de muitas coisas, acha que por aí consegue o que quer. E se há mulheres que alinham nisso, pior ainda.

As pessoas aqui agem de maneira diferente, talvez porque são mais cosmopolitas. A mulher é independente, trabalha, não aceita certas coisas, valoriza-se, acredita nela própria.

Eu dantes dava mais num relacionamento. Agora para dar tenho de receber afecto, atenção, carinho, que me abra a porta, que me vista o casaco. Sou romântica e acho que há coisas que devem ser preservadas. E a mulher hoje é muito exigente, se não for tratada como uma rainha, não vale a pena.

Se gosto de alguém, se quero cultivar a relação, trato-o como um príncipe. Gosto de oferecer presentinhos, às vezes até me sinto ridícula. É importante viver as coisas, não ter vergonha de ser romântica. No fundo, todas estamos à espera do príncipe encantado e todos os homens esperam a princesa encantada. E isso é fantástico.

No mundo da música, a primeira diferença que me vem à cabeça é a forma como as pessoas abordam os cantores. Os homens são muito mais tímidos. Dificilmente um homem sobe ao palco e dá um beijo na boca de uma cantora. Mas a mulher é capaz de fazer isso, abraça, não larga se não vierem os seguranças arrancá-la dali. Os homens, quando felicitam ou pedem um autógrafo, são muito respeitadores. As mulheres querem abraçar e tirar fotografias, mandam flores para casa se descobrem a morada.

É difícil que um homem perceba a minha profissão. É mais fácil que uma mulher entenda e aceite que um cantor seja assediado por 500 mil mulheres. O homem tem mais dificuldade em lidar com o facto de a mulher estar exposta, tem falta de confiança e é uma pena.

Eu estou a trabalhar, é uma vida social tal como se fosse médica. Uma médica ou uma jornalista também se encontra todos os dias com pessoas. Pode aparecer um romance de repente, mas isso só acontece se a mulher quiser, se não estiver segura e bem na sua relação. Se estiver tudo bem, porque é que ela vai procurar outra pessoa fora? Vou fazer um apelo mundial aos homens: tenham compreensão e percebam essa profissão como qualquer outra!

O homem sempre idealizou ter uma mulher muito bonitinha só para ele, em casa, a tratar-lhe da roupa, da comida, ter filhos lindos, uma família linda, mas só ele é que pode ver, os outros não podem porque de repente vão levar a sua pérola.

Eu não sou ciumenta. Quero estar com uma pessoa enquanto essa pessoa quiser estar comigo. Se decidir que já não sou eu, porque esgotou sei lá o quê, já fez as descobertas que queria e encontrou uma pessoa que está mais de acordo com esta fase da vida dele, então adeus, se calhar eu também não estou aqui a fazer nada e vou encontrar o meu caminho. Encaro as coisas assim, não sou possessiva. Logo no início da relação, tenho receio, não sei quem está ali, quais as intenções, se quer apenas ter uma noite escaldante ou se quer construir uma relação bonita. Fico a observar, muito atenta. Ninguém gosta de ser enganado, é a pior coisa que me podem fazer, prefiro que me digam. Vai doer na hora mas depois admiro a pessoa.

Gosto de homens bonitos, elegantes, educados, cavalheiros. Sei que quem vê caras não vê corações mas acabo por cair sempre, é o que me atrai à partida. E depois é a inteligência, o quanto ele me pode ensinar e enriquecer-me intelectualmente, com o conhecimento da vida. É engraçado que a primeira música de amor que eu fiz - Nha vida - dizia exactamente isso: vem ensinar-me todas essas coisas que tu sabes. a

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?A partir de uma entrevista com a cantora