De Experimentando a Morte

Tinha imaginado estar ali, à luz do sol

com o cortejo dos mártires

um só osso esguio sustentando

uma convicção verdadeira

Todavia, o divino vazio não vai

revestir a ouro os sacrificados

Uma matilha de lobos bem nutridos

saciados de cadáveres

festeja no ar quente e jubiloso do meio-dia

Lugar distante

esse lugar sem sol

onde exilei a minha vida

para fugir à era de Cristo

Não consigo fitar a ofuscante visão na cruz

De um fio de fumo a um pequeno monte de cinzas

bebi até ao fim a bebiba dos mártires, sinto a primavera

prestes a romper no rendilhado brilho de inúmeras flores

Noite dentro, estrada deserta

pedalo de regresso a casa

Páro num quiosque de tabaco

Um carro segue-me, atropela a bicicleta

Um par de brutamontes agarra-me

Algemado, olhos vendados, boca amordaçada

atirado para uma carrinha celular rumo a nenhures

Um piscar de olhos, trémulo instante

abre um clarão de lucidez: Ainda estou vivo

nas notícias da Televisão Central

o meu nome mudado para "mão negra detido"

ainda que esses anónimos ossos brancos dos mortos

se mantenham de pé no esquecimento

Ergo alto a mentira auto-inventada

Digo a todos como experimentei a morte

para que "mão negra" se torne a honrosa medalha de um herói

Sabendo embora que a morte

é um impenetrável mistério

estando vivo, não a posso experimentar

e uma vez morto

não posso repetir a experiência

pairo ainda assim dentro da morte

um pairar em afogamento

Noites sem conta atrás de janelas gradeadas

e as campas sob as estrelas

revelaram os meus pesadelos

À parte uma mentira

Não possuo nadaDetido pelo regime chinês, o oposicionista Liu Xiaobo não pôde estar ontem em Oslo para receber o Prémio Nobel da Paz. Mas as palavras são mais difíceis de prender, e Liu Xiaobo conseguiu fazer chegar ao exterior

um poema inédito, escrito no cárcere. O jornal New York Times foi o primeiro a publicá-lo, numa tradução de Jeffrey Yang, à qual o P2 recorreu para esta versão em português. Exclusivo PÚBLICO/New York Times