Crítica

Mariza

Olhar para os números de vendas dos discos de Mariza é impressionante: os dois primeiros, "Fado em Mim" (2002) e "Fado Curvo" (2003) foram quádrupla platina, "Transparente" (2005) e "Terra" (2008) chegaram à tripla. Musicalmente, o último foi um passo em frente: arrancava elementos de músicas de outros pontos do globo e procurava ligações com as entradas que o fado permite. Valeu-lhe um Grammy latino para melhor disco "World" (designação que apenas serve para mostrar o anglo-centrismo do mundo). Além de mostrar um raro cuidado na escolha das melodias e dos arranjos "Terra" mostrava uma Mariza mais contida. A questão é que a fadista, sendo sobre-dotada por natureza (e eventualmente trabalho), tem uma certa dificuldade em perceber quando dar à goela e quando optar pela subtileza. Mariza é um pouco como Ronaldo há uns anos: se puder fazer uma fintinha a mais fá-la. Só que isso diminui o impacto emocional de um fado, que vive da exactidão com que se mede a entrega das palavras.

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Pelo que se quisermos ater-nos ao fado "puro", este "Fado Tradicional" é de longe o melhor disco de fados de Mariza. A escolha de reportório clássico - como o fado Vianinha, o fado Alfacinha, ou o fado Varela - ajuda, se bem que Mariza também recorra a compositores novos. Ela é tão melhor quanto mais se aproxima da tradição e doma a voz, como em "Na rua do silêncio", a partir do fado Alexandrino, em que tem um óptimo, sublinhe-se, óptimo desempenho. E, declaradamente, está no seu melhor quando um fado não exige uma fundura emocional desmesurada, como acontece em "As meninas dos meus olhos" (a partir do fado Alfacinha) ou "Rosa da Madragoa", talvez porque, no fundo, seja esse o seu desígnio: tendo uma voz inigualável, Mariza não parece ser uma musa do sofrimento. O que é bom para ela, mas a impede de ter a grandeza subtil de que hoje só Camané é capaz. Ainda assim, este disco merece ser mais laudado do que os anteriores (se tal for possível).