A greve não é para quem quer, é para quem pode

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16h32 DANIEL ROCHA

Chove em Lisboa. Não há trânsito na zona ribeirinha. O Chiado acorda devagar, muito devagar. Tiago Gillot, do movimento Precários Inflexíveis, mantém o entusiasmo para a greve geral, apesar de as pessoas aparecerem a conta-gotas. Mas o relógio marcava ainda 8h. São jovens que se juntaram para mobilizar trabalhadores em situação precária de trabalho - recibos verdes e contratos a prazo encaixam no perfil. E o apelo é comum: façam greve. Mas há aqui, sobretudo, gente que não faz greve, mesmo concordando com as razões. Gente que tem a certeza de que será penalizada se aderir. Gente que sabe que a greve não é para quem quer, mas para quem pode.

Vasco Guerra faz uma pausa no call center da Estefânia. Está há cinco anos a contrato, hoje apanhou boleia do chefe para o trabalho. "Estamos a menos de 50 por cento, mas pela inviabilidade dos transportes", afirma. "As greves são muito bonitas, mas não para quem está a prazo", diz, sem esconder a ironia. Vasco tem a "certeza de que era penalizado se fizesse". Bruno, um colega de Vasco, é assertivo quando diz: "Não fiz greve porque não posso, seria penalizado, mas faria se tivesse outra situação laboral." O contrato a prazo há um ano não lhe deixa alternativas. Ser penalizado na performance pode significar menos 150 euros e a questão fica assim fora de questão.

Tiago Gillot distribui panfletos e explica que o movimento tem conhecimento de pessoas que receberam ameaças no local de trabalho, de reorganizações de turnos para garantir que os trabalhadores não faltem, trocas de folgas, táxis pagos pela entidade patronal e boleias facilitadas pelos patrões. Estão ali "para receber relatos e fazer denúncias" no blogue dos Precários, mesmo que a maioria peça anonimato, "porque tem receio."

A plataforma Precários Inflexíveis acha que "já vamos a caminho do PEC IV" e defende nos folhetos que "a austeridade é a precariedade acelerada". Os números não são oficiais, "porque as estimativas são sempre feitas por baixo", mas o movimento calcula que cerca de 30 por cento da população activa tenha vínculos precários. Jogo empatado para um milhão que está a recibos verdes e para outro milhão que está contratado a prazo.

Na estação do Rossio, o Bloco de Esquerda animou as hostes com música e distribuição de propaganda. Cristina Silva veio da Amadora no terceiro comboio do dia, após uma hora de espera. A lojista foi a pé para o Conde Redondo e o seu contrato de um mês não lhe permitiu pensar em aderir. O desconto do dia "faria diferença no final do mês".

Rui Delgado tem 75 anos, recibos verdes há quatro e fez greve. O despachante alfandegário espera que "o Governo se sente à mesa para negociar". Mas não tem ilusões: "Os sindicatos não têm força e fazer greve custa dinheiro." Rita Brandão Guerra