Oito mil na Avenida da Liberdade: "Já nos bastou a guerra colonial"

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Desfile na Avenida de Liberdade

Milhares desfilaram ontem contra a NATO. Mas eram de facto três manifestações: a do PCP (grande), a do Bloco (pequena) e a dos anarquistas (cercada pela polícia)

São três manifestações numa. "A guerra só traz coisas más", diz António José Anacleto, que vem de Alenquer com uma bandeira vermelha do PCP. "Tenho 77 anos e já passei pela guerra. A guerra colonial. Sou contras as guerras no mundo inteiro. O massacre dos povos tem de acabar." Esta é a manifestação da frente.

António Anacleto foi preso e torturado em Caxias, por distribuir propaganda de apoio à candidatura de Humberto Delgado. Perseguido pela PIDE, emigrou para a França e a Alemanha. "As pessoas não se lembram, mas o fascismo existiu." Durante a Segunda Guerra Mundial, dividia cada sardinha por duas pessoas, lá em casa. "Éramos uma família de seis pessoas. Com as senhas de racionamento, ia comprar para elas três quartos de um pão. Fiquei a saber que a guerra é uma coisa ruim. Traz a fome. Por isso, com esta idade, aqui estou, contra a guerra. Estou revoltado. Preciso de desabafar." Mas costuma vir a todas as manifestações convocadas pela CGTP ou o PCP.

José Tajola também. Tem 80 anos, foi motorista da Carris, pertence à Federação dos Reformados, vem de Avis, no Alentejo. "Sou comunista desde os 13 anos", diz logo. Manifesta-se "contra a guerra em geral": "Portugal não precisa de andar a criar filhos para a guerra. Já bastou a guerra colonial." É a primeira manifestação: a dos comunistas.

Ocupam a frente do cortejo, os primeiros milhares de pessoas. Dos oito mil que o especialista americano em contagem de multidões Steve Doig calculou, seguramente mais de três quartos pertencem a esta "onda vermelha". Doig, que é perito em aplicação de métodos quantitativos das ciências sociais em jornalismo, esteve na manifestação a fazer cálculos. "Fixei-me num ponto da Avenida da Liberdade e fiz contagens de 30 segundos de dois em dois minutos, durante os 45 minutos que durou a passagem da manifestação", explicou o professor ao PÚBLICO. Contou 8 mil pessoas, sem discriminar a que grupos ou partidos pertenciam.

Mas a diferenciação era fácil de fazer. Ao contrário do costume noutras manifestações em Lisboa, nesta os participantes decidiram identificar-se claramente. Desfilaram sindicatos da CGTP, ou organizações específicas ou regionais, na sua maioria ligadas ao PCP. Uma grande percentagem dos manifestantes envergava a bandeira vermelha com a foice e o martelo e a sigla PCP.

"Num momento em que há medidas de austeridade, não faz sentido gastarem-se milhões na organização desta cimeira, com a segurança, a tolerância de ponto", diz Diana Conceição, 25 anos, estudante de Comunicação Social em Braga, segurando uma faixa do Movimento Democrático das Mulheres. Os cartazes e as faixas dizem "Pela paz, trabalho, pão. NATO não!", ou "Por Abril, pela paz, não à NATO". As palavras de ordem gritam "Não à guerra dos milhões. Para os trabalhadores só tostões."

É a manifestação da frente. Contra a crise, o desemprego, a austeridade, o fascismo. Ninguém parece preocupado com a NATO, o novo conceito estratégico, o Afeganistão. Contra a guerra, sim, mas a colonial, que já fez o povo sofrer o suficiente.

"Inventar novos perigos"

A segunda manifestação é a do Bloco. Como o nome indica, desfila em bloco, compacta, em contraste táctico com a dispersão dos manifestantes do PCP. Enquanto estes parecem empenhados em mostrar que a Avenida da Liberdade está quantitativamente repleta, do Marquês de Pombal aos Restauradores, os do Bloco de Esquerda apostam na qualidade. Ocupam menos espaço mas fazem mais barulho, e são mais criativos. Uns falam ao megafone, de camuflado, os Panteras Rosa (direitos dos gays) exibem caudas felpudas, uma faixa diz: "No, you can"t", e outra "Senhores da guerra, deixem os povos em paz".

"Dantes, a NATO dizia que era contra o perigo vermelho. Mas agora já não há isso. Então têm de inventar novos perigos, para justificar o seu orçamento de milhões", diz Cláudia, 24 anos. É a segunda manifestação.

A terceira apresenta-se de forma estranha. Não por causa das raparigas de cabeleira azul a tocarem tambores e pandeiretas. Não devidos aos apitos à gritaria, às barbas, aos cabelos desgrenhados ou roupas esfarrapadas. Não por haver mais estrangeiros do que portugueses. Nem pelo facto de vários manifestantes terem trazido os cães. Tudo isso é pouco usual nas manifestações de Lisboa. Mas o que torna o grupo realmente estranho é estar afastados do resto da multidão e cercado por um cordão de polícia de choque.

"Paz! Paz! Paz! Paz! Paz!", gritam em sintonia com os tambores os pouco mais de 100 (estimativa de Steve Doig) representantes da "terceira manifestação". Os cartazes dizem palavras de ordem como "Terroristas estão na FIL", e os manifestantes frases como "Eles querem criar um governo mundial e um banco mundial. Dizem-nos que um gajo tem de ser famoso, tem de chegar ao topo, para ser alguém. Mas o pessoal não quer nada disso. O pessoal quer viver." Gianluca Curatolo, 31 anos, é italiano e actor. Faz teatro de marionetas para crianças. É ele que diz isto, num transe cheio de raiva. "Não sei se é raiva ou ódio. Estou farto de ver pessoas a morrer. Ninguém se lembra delas. A NATO fez um mês de publicidade desta cimeira. Quando uma pessoa morre, no dia seguinte já todos a esqueceram."

Na terceira manifestação, há pacifistas, anticapitalistas, anarquistas, libertários, idealistas sem ideário. Entre eles, estão elementos cujo objectivo era de facto provocar a violência. Não muitos, que os grupos europeus partidários da estratégia do "black bloc" ficaram em casa (principalmente na Alemanha), por falta de dinheiro para a viagem. E os portugueses são poucos e desorganizados.

O plano era espalharem-se na multidão e começarem a provocar os polícias, na esperança de que estes ripostassem indiscriminadamente contra a manifestação. Um cenário de a polícia a carregar sobre os velhos militantes do PCP era provavelmente o sonho mais selvagem dos elementos anarquistas. O Corpo de Intervenção da PSP decidiu não correr riscos. Cercou num cordão feito de corpos maciços, escudos, capacetes e cassetetes o grupo da terceira manifestação e desceu assim com eles a avenida.

No fim, os agentes dispersaram de repente e foram proteger a montra da sede de candidatura de Cavaco Silva. Anarquistas e alguns comunistas chocados com a acção da polícia gritaram em conjunto "O povo unido jamais será vencido".