Ainda não chegaram e já criam problemas em Lisboa

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No Parque das Nações foram colocados os primeiros postos de carregamento de carros eléctricos

A capital vai ter 687 pontos de carregamento de veículos eléctricos no próximo ano. "Um disparate" que vai ocupar os passeios já cheios de obstáculos, diz o vereador da Mobilidade, Fernando Nunes da Silva. Por Inês Boaventura (texto) e Rui Gaudêncio (foto)

a Por enquanto é preciso ter alguma pontaria e os olhos bem abertos para encontrar um dos pontos de carregamento de veículos eléctricos já instalados em Lisboa, mas no próximo ano, quando houver quase 700 equipamentos disseminados pelas ruas e parques de estacionamento da cidade, será impossível não reparar neles. Os especialistas admitem a necessidade destes postos, essencialmente para dar segurança a quem estiver a pensar comprar um dos primeiros carros movidos a electricidade em Portugal, mas não têm dúvidas de que esta é uma rede problemática e sobredimensionada.

A definição do local onde vão ser colocados os 687 pontos de abastecimento - de um total de 1300 em todo o país - que o Gabinete para a Mobilidade Eléctrica atribuiu a Lisboa ainda não está fechada. Este trabalho envolve a Agência Municipal de Energia e Ambiente (Lisboa E-Nova), a Empresa Municipal de Estacionamento de Lisboa (EMEL) e o Instituto Superior Técnico. O vereador José Sá Fernandes (com o pelouro do Ambiente Urbano em Lisboa) diz que esse trabalho deveria ter sido concluído até meados de Outubro, o que afinal não aconteceu.

Isso mesmo admitiu Tiago Farias, um dos vogais do conselho de administração da EMEL, revelando que por trás da demora no processo de distribuição dos equipamentos está a necessidade de "minimizar o rombo" que se prevê que a empresa venha a sofrer. Isto porque centenas de lugares de estacionamento na via pública que hoje são tarifados (cada um dos quais rende uma média de dois euros por dia) vão converter-se em pontos de carregamento de veículos eléctricos, o que representará uma significativa perda de receita.

Não menos importante é o facto de estar em causa o surgimento de 687 novos obstáculos (ou o dobro, se tivermos em conta que cada um dos postos inclui uma unidade central e uma unidade satélite) nos passeios de Lisboa, já tão atafulhados de parquímetros, sinalética variada, suportes publicitários e outros equipamentos. "É desagradável para o espaço público", reconhece o director técnico e financeiro da E-Nova, Miguel Águas, acrescentando que é imprescindível conceber equipamentos robustos, capazes de resistir ao vandalismo.

A isto junte-se a convicção generalizada de que os postos de carregamento não vão ter uma utilização massificada, que seria desejável para justificar o investimento de "oito a nove milhões de euros". Segundo Rui Marques, da EDP Inovação, é este o montante necessário para instalar os primeiros 1300 equipamentos em todo o país. O número de veículos eléctricos deverá crescer a um ritmo lento, e a maioria dos proprietários deverá optar por carregá-los em casa", diz Miguel Águas, explicando que o carregamento nos postos públicos tem vários inconvenientes: demora entre seis a oito horas e obriga os condutores a estarem atentos ao fim da operação (da qual poderão ser avisados através de uma mensagem escrita para o telemóvel). Findo o carregamento, terão apenas alguns minutos para retirar os veículos. Além disso, implica um esforço prévio para encontrar na cidade equipamentos que estejam livres, o que, em princípio, poderá ser feito através da Internet.

Mesmo perante tantas contrariedades ou indefinições, há especialistas que defendem esta rede de pontos de carregamento como necessária "para quebrar a ansiedade", como sustenta o director técnico e financeiro da E-Nova, lembrando que não haverá quem compre um veículo eléctrico se achar que corre o risco de ficar apeado no meio de Lisboa por falta de bateria.

"A infra-estrutura de carregamento no início será sobredimensionada ou largamente sobredimensionada, mas é um factor tranquilizador", diz Ricardo Oliveira, director de comunicação da Renault Portugal, admitindo que não faz "a mais pálida ideia" de quantos veículos movidos a electricidade vai a marca vender em Portugal. Este responsável falava num encontro sobre mobilidade eléctrica que se realizou na passada semana, por iniciativa da Associação Portuguesa de Comunicação de Empresa, e no qual participou também a EDP. Nesse fórum, Rui Marques, da EDP Inovação, defendeu que "é fundamental alguém gastar dinheiro para dar um sinal às pessoas de que podem comprar veículos". Isto apesar de este engenheiro reconhecer que "ninguém sabe" se esse é um investimento "verdadeiramente sustentável".

Mais radical é o vereador da Mobilidade da Câmara de Lisboa, para quem a ideia de que as pessoas vão carregar as baterias dos seus carros na rua "é uma ficção". Nesse sentido, Fernando Nunes da Silva afirma que colocar 687 pontos nos passeios e parques de estacionamento da capital "é um disparate neste momento, porque não há procura para isso", acrescentando que as garagens particulares levarão sempre a melhor enquanto não se disseminarem os postos de carregamento rápido (nos quais essa operação levará entre dez a 30 minutos).

Este vereador e especialista em transportes defende que, pelo menos numa primeira fase, o sucesso dos veículos eléctricos se fará à custa de sistemas de car-sharing (partilha de carros), devido ao elevado preço de venda destes carros (comparativamente com um automóvel convencional) e porque nos modelos que vão estar disponíveis dentro de alguns meses "as bagageiras são mínimas". Por isso, diz Nunes da Silva, pelo menos as famílias deverão manter um carro de combustão para as grandes viagens, podendo trocá-lo por um eléctrico para deslocações no interior da cidade. "Será um complemento de outro tipo de mobilidade", resume.

A Câmara de Lisboa não quer passar ao lado dessa realidade e já está a estudar, por determinação do vereador Sá Fernandes, a criação de um sistema de car-sharing. Segundo o seu assessor de imprensa - que ressalva que tudo isto "está dependente do mercado e do grau de maturidade do mesmo, quer em termos de tecnologia, quer de preço" -, a ideia é que o esquema de aluguer de carros movidos a electricidade possa estar implementado "no final do primeiro semestre de 2011".

A autarquia, que tem já ao seu serviço 15 pequenas viaturas eléctricas de apoio à limpeza dos bairros históricos, estabeleceu ainda como meta que até 2013 a sua frota de ligeiros seja "constituída maioritariamente por carros eléctricos e também por alguns híbridos". Sá Fernandes garante que a Câmara de Lisboa vai também interceder junto de empresas do município para "incentivar os grandes empregadores a usarem carros eléctricos".

A par do esforço para que estes novos veículos substituam os convencionais, mais poluentes e ruidosos, surge o receio de que no futuro se vá ter uma cidade ainda mais congestionada do que a actual. "É um risco", admite Miguel Águas, explicando que, como "o custo por quilómetro num carro eléctrico é mais de cinco vezes mais baixo do que num carro a combustão, as pessoas podem ter a tendência a usar mais os seus carros".

No capítulo dos transportes colectivos de passageiros a entrada no mundo da mobilidade eléctrica é, como explica Tiago Farias, mais problemática, por razões que se prendem com custos e questões tecnológicas como a autonomia e a dimensão dos veículos. Não é por isso de estranhar que em Portugal sejam muito poucas as cidades com autocarros eléctricos. Segundo os números da Associação Portuguesa do Veículo Eléctrico (APVE) são oito (com um total de 21 veículos, cada um dos quais com capacidade para cerca de 20 pessoas), das quais apenas uma na Área Metropolitana de Lisboa: Almada.

Robert Stussi, presidente da APVE, não se conforma com esta realidade e lamenta que o investimento na rede de carregamento de veículos eléctricos não esteja a ser acompanhado por um esforço na renovação das frotas das transportadoras. Isto apesar de este responsável admitir que um mini-autocarro eléctrico pode ter um custo "na ordem dos 220.000 euros, sensivelmente o dobro de um autocarro a diesel equivalente".

Questionada sobre este assunto, a Carris explica que testou há alguns anos autocarros híbridos, aguardando "a oportunidade de efectuar em 2011 testes em serviço com híbridos de nova geração, que começaram recentemente a ser comercializados". Isto porque, sustenta o secretário-geral da empresa, Luís Vale, esta é a solução que se perspectiva "a curto prazo", já que os mini-autocarros que circulam em oito cidades de Portugal "não são suficientemente adequados ao serviço de exploração da Carris".