Túmulo de Tycho Brahe foi aberto. Foi o mercúrio que matou o astrónomo?

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O arqueólogo Jens Vellev passou dez anos a pedir as autorizações para abrir a sepultura MICHAL CIZEK/AFP

Há várias teses sobre a morte de um grande nome da astronomia do século XVI. Envenenou-se acidentalmente. Foi envenenado por outro astrónomo que lhe queria roubar as observações de uma vida. Ou envenenado a mando do rei dinamarquês, devido a um caso amoroso. A sepultura de Tycho Brahe foi aberta - procuram-se respostas. Por Teresa Firmino

O mercúrio em concentrações elevadas no bigode de Tycho Brahe, detectado há quase 20 anos, prova mesmo que o astrónomo dinamarquês foi assassinado? Pôr fim a este mistério, com mais de 400 anos, seria a sorte grande para uma equipa de cientistas, que, na segunda-feira, entre uma multidão, abriu o túmulo do astrónomo na Igreja de Nossa Senhora de Týn, em Praga, na República Checa.

Hoje é o último dia de trabalhos em que a equipa de cientistas dinamarqueses, checos e suecos vai retirar dos restos mortais de Tycho (1546-1601) e da sua mulher, sepultada ao seu lado três anos depois da morte do astrónomo, pedaços de osso e amostras de cabelos e roupas. Depois, serão submetidos a análises químicas, atómicas e de ADN. Os exames incluem também uma tomografia axial computorizada (TAC), para se obterem imagens tridimensionais.

O túmulo já tinha sido aberto uma vez, em 1901. "É crucial documentar os ossos, para sabermos o que está ali. Não sabemos se foram misturados com os ossos da sua mulher, Cristina", explica Niels Lynnerup, da Universidade de Copenhaga, citado pelo jornal espanhol El Mundo.

Amanhã, a equipa, liderada pelo arqueólogo Jens Vellev, da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, vai devolver os restos mortais às sepulturas, depois da celebração de uma missa.

Jens Vellev passou os últimos dez anos a obter as autorizações necessárias para a abertura da sepultura (em Portugal, a equipa da antropóloga forense Eugénia Cunha, da Universidade de Coimbra, quis fazer o mesmo com o túmulo de D. Afonso Henriques, em 2006, mas viu esse projecto gorado pelo Ministério da Cultura).

Tudo isto porque a morte de Tycho continua uma nebulosa. Talvez seja até um caso de polícia. Há diversas teses que apontam para o assassinato, e uma tem como protagonista outro grande nome da história da astronomia, o alemão Johannes Kepler (1571-1630).

Tycho era um nobre que estava destinado a um cargo no Estado ou na Igreja. Robusto e extrovertido, gostava de comer, beber e gozar a vida. Descrevem-no como um fanfarrão. Num duelo com outro aristocrata dinamarquês, acabou com o nariz cortado. Desfigurado, usou desde então uma prótese de metal. Muitos acreditam que era de ouro e prata, outros que era de cobre - um facto que agora pode ficar esclarecido.

Já Kepler provinha de uma família de comerciantes em declínio. Era magro e frágil: sofreu de dores durante toda a vida e preferia a solidão. Mas ficou na história da ciência pelas suas descobertas sobre o movimento dos planetas - por exemplo, as órbitas não são circulares, como se pensava até àquela época, mas elípticas. No entanto, por trás desta ruptura na forma como se via o Cosmos pode ter estado um homem com uma mente conturbada, que planeou assassinar Tycho.

A história do eventual crime encontra-se relatada no livro A Intriga Cósmica, do escritor Joshua Gilder e da jornalista Anne-Lee Gilder (Alêtheia Editores).

Tycho morreu 11 dias depois de ter adoecido durante um banquete real, aos 54 anos, atribuindo-se a morte a uma infecção urinária. Reza a história que o astrónomo foi demasiado educado para se levantar da mesa e ir à casa de banho. Mas seria necessário esperar três séculos até se recolherem os primeiros elementos que, mais tarde, trariam novas informações.

Indícios nos fios do bigode

Em 1901, nos 300 anos da morte de Tycho, o túmulo na Igreja de Nossa Senhora de Týn foi restaurado e colocaram-se os ossos numa urna de zinco. Nessa altura, recolheram-se amostras de roupas, dos cabelos e do grande bigode de Tycho, tudo entregue ao Museu Nacional de Praga.

Em 1991, o director do museu decidiu oferecer alguns fios do bigode ao embaixador da Dinamarca, que por sua vez os deu ao director do Planetário Tycho Brahe, em Copenhaga. Acabaram por ser analisados no Instituto de Medicina Forense da Universidade de Copenhaga, pelo toxicologista Bent Kaempe: tinham concentrações de mercúrio 100 vezes superiores ao normal.

Em 1993, Kaempe apresentou o estudo: Tycho podia ter sido envenenado por mercúrio, dez a 12 dias antes da morte. Mas ainda não era defendida a tese do assassinato. Como o astrónomo também era alquimista, o envenenamento pode ter sido devido às experiências que fazia; ou utilizou o mercúrio como tratamento de alguma doença.

Em 1996, surgiram novos indícios e foi nessa altura que a tese do assassinato ganhou força. Jan Pallon, da Universidade de Lund, na Suécia, recebeu alguns cabelos de Tycho para serem analisados com uma técnica que permitia identificar os elementos químicos presentes e o sítio do fio de cabelo em que estavam. Um dos cabelos, ainda com raiz, tinha uma grande concentração de mercúrio - o que era um indício de que o envenenamento tinha acontecido pouco tempo antes da morte e o mercúrio ainda estava no sangue. Ao olhar ao longo do cabelo, para traçar uma cronologia do envenenamento, Pallon concluiu que Brahe tomou duas doses brutais de mercúrio.

"Durante 400 anos, acreditou-se que Tycho Brahe morreu de causas naturais", lê-se em A Intriga Cósmica. "Análises recentes a fragmentos dos seus cabelos revelaram que foi sistematicamente envenenado; e o motivo, os meios e a oportunidade apontam directamente para um suspeito: Kepler."

Porquê suspeitar de Kepler? Porque era quem mais tinha a ganhar, se ficasse na posse das observações de estrelas e planetas feitas por Tycho ao longo de 40 anos.

Relação conturbada

O fascínio de Tycho pela astronomia começou ainda na adolescência e prolongou-se vida fora. As suas observações, que lhe permitiram compilar um catálogo de mais de mil estrelas, começaram por causa de um certo acontecimento astronómico: a conjugação de Saturno e Júpiter em 1564, um fenómeno que só ocorre a cada 20 anos, tinha um desfasamento de um mês face aos guias da época sobre os corpos celestes. Tycho compreendeu então que qualquer modelo do Cosmos tinha de ser baseado em observações sólidas do movimento dos planetas em relação às estrelas.

Começou a construir instrumentos de observação cada vez maiores, como o quadrante gigante, numa época em que o telescópio ainda não existia como tal (Galileu só o apontou aos céus em 1610).

Em 1576, Tycho visitou a ilha de Hven (então da Dinamarca, agora da Suécia), onde veio a construir um observatório e a sua mansão. Nessa altura, já era tão famoso por toda a Europa que os dinamarqueses criaram a expressão "tão sábio como Tycho Brahe".

Esta fama vinha do facto de ter percebido o que era um objecto brilhante que apareceu repentinamente no céu, em 1572. Não era um cometa, nem um meteoro. Era uma estrela. Hoje, sabe-se que era uma supernova, uma estrela moribunda que explode, na constelação da Cassiopeia. É conhecida precisamente como a Supernova de Tycho.

Depois de 21 anos de observações na ilha de Hven, Tycho foi forçado a fugir em 1597 devido a um conflito com o rei da Dinamarca, Cristiano IV, e a refugiar-se em Praga, como Matemático Imperial da corte de Rudolfo II.

Finalmente, os caminhos de Tycho e Kepler vão cruzar-se. Aos 22 anos, Kepler foi para a cidade de Graz ensinar matemática e astronomia e, pouco depois, publicava um modelo para o Cosmos. Os dois astrónomos comunicaram por carta e Tycho convidava Kepler para assistente.

Em 1600, Kepler chegava a Praga e Tycho encarregava-o de analisar a pilha de dados, para que o modelo de Cosmos do astrónomo dinamarquês, erradamente com a Terra no centro, pudesse prever os movimentos dos planetas. Para Kepler, adepto do modelo que punha o Sol no centro do Cosmos, defendido por Copérnico, essa análise era uma maçada. Mas, em cartas, admitia que queria os 40 anos de observações do dinamarquês. Nos 18 meses em que foi assistente de Tycho e viveu na sua casa, o relacionamento era tenso.

Quando Tycho morreu, o seu tesouro ficou nas mãos de Kepler. Foram essas observações que lhe permitiram elaborar as famosas três leis do movimento planetário, publicadas em 1609 e 1619 e que iniciaram a astronomia moderna. Kepler percebeu que cada planeta se move à volta do Sol numa órbita elíptica; que os planetas se movem mais depressa quando estão mais perto do Sol e mais lentamente quando estão mais longe; e relacionou a distância a que um planeta está do Sol com o tempo que demora a completar uma órbita.

"Se não fosse Tycho Brahe, Kepler teria sido uma nota de rodapé nos livros de ciência dos nossos dias", escreveram os autores de A Intriga Cósmica.

Certamente discutível, a tese do assassinato cometido por Kepler não deixa de ter os ingredientes de um policial. Mais recentemente, formulou-se a hipótese de que o astrónomo tenha sido assassinado por um primo distante, Eric Brahe, a mando de Cristiano IV. É defendida pelo historiador dinamarquês Peter Andersen, que se apoia na descoberta de um diário de Eric Brahe. O rei odiaria Tycho por causa do romance que o astrónomo teve com a sua mãe, a rainha Sofia. O primo de Tycho, que viajou até Praga, teria sido o autor material do crime, ao despejar o mercúrio no copo do astrónomo.

Mas entre concluir que os restos mortais de Tycho têm concentrações elevadas de mercúrio e que foi envenenado vai um grande passo. "Isso é difícil de provar, já que ele era alquimista e teria estado exposto ao mercúrio. Também trabalhava como farmacêutico e naquela época prescrevia-se mercúrio para quase todas as enfermidades", sublinha Niels Lynnerup.

Não se esperam resultados para já, pois as análises vão demorar vários meses. "Talvez cheguemos perto de uma resposta, mas acho que não encontraremos a resposta final", diz Jens Vellev.

E mesmo que a tese do envenenamento seja corroborada, talvez nunca se descubra quem foi o assassino. Caso arquivado?