O compositor que devolveu a espiritualidade à música1933-2010 Henryk Górecki

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Apesar do sucesso, JANEK SKARZYNSKI/AFP

Discreto e reticente em relação ao sucesso, o polaco Henryk Górecki escreveu a obra orquestral mais famosa do final do século XX, mas a sua produção não se esgota no milhão de cópias da Sinfonia das Canções Tristes. Por Cristina Fernandes

Em meados da década de 1990, a Sinfonia n.º 3 (Sinfonia das Canções Tristes) de Henryk Górecki era talvez a peça mais famosa de um compositor vivo. A gravação de 1992, com a London Sinfonietta e a soprano Dawn Upshaw sob a direcção de David Zinman, vendeu mais de um milhão de cópias e em pouco tempo tornou o nome de Górecki conhecido à escala mundial, junto de um público ecléctico e transversal que extravasava largamente o círculo restrito da música erudita.

Colaborações posteriores com o Kronos Quartet e o uso da sua música em bandas sonoras prolongaram a fama deste compositor polaco de 76 anos que morreu a 12 de Novembro, em Katowice, junto de uma audiência ampla, mas contribuíram também para fornecer uma visão redutora do seu percurso. No imaginário colectivo, o nome de Górecki ficou associado a esta obra de audição fácil, quando a sua produção é muito mais multifacetada e complexa.

Com Witold Lutoslawski e Kzysztof Penderecki, Górecki foi um dos pioneiros do renascimento da música polaca no pós-Guerra. As suas obras iniciais foram marcadas pela linguagem radical da vanguarda, pela violência sonora e pelos acordes dissonantes, mas a Sinfonia das Canções Tristes caracteriza-se pelo sentido oposto, representando um regresso à simplicidade e ao idioma tonal, ao mesmo tempo que se aproximava do chamado "minimalismo religioso" numa linha paralela à de compositores como Arvo Pärt ou John Tavener.

Um oásis

Concebida como um tributo às vítimas do Holocausto, a Sinfonia das Canções Tristes recorre em cada um dos seus três andamentos a cantos sobre textos polacos: um lamento do século XV; uma mensagem escrita por uma adolescente nas paredes de uma prisão polaca da Gestapo; e uma melodia do folclore da Silésia, que relata o desespero de uma mãe que procura o seu filho perdido. A obra data de 1976 (15 anos antes da gravação) e tinha sido estreada um ano depois no Festival Internacional de Arte Contemporânea de Royan, onde foi recebida com frieza e considerada redundante. Mas quando a gravação surgiu o panorama musical, cultural e económico tinha mudado. A forte componente emocional e espiritual da obra funcionou como uma resposta à vanguarda hermética das décadas precedentes, que era agora posta em causa e considerada académica pelas correntes pós-modernas. Como escreveu Alex Ross no livro E o Resto É Ruído, compositores como Pärt, Górecki e Tavener "conseguiram um certo grau de apelo das massas durante os períodos de boom económico global dos anos 80 e 90", pois "representavam um oásis de repouso numa cultura saturada de tecnologia".

O êxito da Sinfonia n.º 3 transformou a vida de Górecki, mas o compositor, que se considerava "um solitário e um recluso", manteve uma certa desconfiança em relação à fama. "Fico contente que as pessoas fora do mundo da música clássica comprem a minha peça. (...) Se comprarem o meu disco em vez de cigarros, estarei a salvar vidas o tempo todo", disse numa entrevista. Com o dinheiro ganho comprou um Mercedes há muito sonhado e uma casa de campo nas montanhas Tatra, na fronteira entre a Polónia e a Eslováquia, mas preferiu não abusar das luzes da ribalta.

Feliz entre os camponeses

O musicólogo britânico Adrian Thomas, que escreveu um livro sobre o compositor em 1997, conta que Górecki era um "homem reservado, com uma forte crença na família, sentido de humor, coragem física contra a doença e capacidade para estabelecer verdadeiras amizades". Era em contacto com o