O comboio foi-se há muito. O metro talvez nunca venha a chegar

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Ao chegar à Maia, os utentes do serviço alternativo podem continuar no metro até à estação da Trindade

A suspensão do prolongamento do sistema de metropolitano da Maia até à Trofa foi recebida com apreensão nesta cidade. Há quem tema que a decisão de retirar a obra do plano de actividades da Metro do Porto para 2011, por falta de financiamento, seja a machadada final no projecto. Por Samuel Silva (texto) e Fernando Veludo/NFactos (foto)

a Não tem lido jornais e poucas vezes liga a televisão, mas Natividade Peixoto não deixa de ser assertiva. "É capaz de ser um adiamento para sempre, não é?", atira assim que percebe que ainda não será desta que o metro do Porto vai chegar à Trofa. "Se voltaram a adiar, se calhar já não vão fazer obra nenhuma", arrisca esta operária, que todos os dias apanha o autocarro que, desde 2002, faz o percurso entre o centro da Trofa e a Maia.

Por estes dias, é este o principal receio dos trofenses: que o adiamento sine die da construção da linha do metro, à boleia das novas regras de limitação do endividamento definidas pelo Plano de Estabilidade e Crescimento, se converta num golpe de misericórdia para a ligação da cidade à rede do Grande Porto. Um "desalento" que até já afectou a presidente da câmara, Joana Lima, eleita há um ano pelo PS. "Estou com pouca esperança no futuro do projecto", assume a autarca.

A ligação de caminho-de-ferro entre a Trofa e a estação da Trindade foi encerrada a 24 de Fevereiro de 2002. O canal da antiga via estreita da linha de Guimarães passou, então, definitivamente para a posse da Metro do Porto, para ali passar a linha C. O projecto de reconversão do traçado até fazia parte da primeira fase da rede, mas apenas uma parte dele, os poucos mais de dez quilómetros entre Senhora da Hora e Ismai, ficou concluído (ver texto ao lado).

A Trofa espera desde então. E enquanto não há dinheiro para a obra, a solução para a mobilidade no Noroeste do Grande Porto é um autocarro, que liga a cidade ao Fórum da Maia. É lá que André Ferreira aguarda pela ligação à Trofa. Entrou no metro no Campo 24 de Agosto, mas tem que fazer o resto da viagem de autocarro, para chegar ao Centro de Formação Profissional da Indústria de Construção Civil e Obras Públicas, em Espinhosa, onde estuda. "Eu acho que as pessoas já desistiram do metro", observa. "Já ninguém acredita que alguma vez possam construir a linha. Se a fizessem, era escusado mudar de transporte para ir para as aulas", diz.

Uns quilómetros depois, já André e quatro outros colegas de estudo tinham saído do autocarro, sobem a bordo Sílvia e Susana. Estamos em Muro, no concelho da Trofa, uma localidade com perto de dois mil habitantes, que viu parar ali o comboio da via estreita durante mais de um século. O serviço de substituição - que vai custar à Metro do Porto 435 mil euros durante os próximos dois anos - "é a única alternativa para ir para a escola", informam.

A população que usa este serviço é essencialmente jovem. Justificam-no as viagens para o Centro de Formação de Espinhosa, o Ismai e as escolas dos concelhos da Maia e Trofa. Também há trabalhadores a bordo, como Irene Dias, que, há cinco anos, utiliza o serviço, quatro vezes por dia. "O metro era o ideal, porque evitava o trânsito", reclama. Pega às 10h00, num hipermercado na Maia, mas sai de casa uma hora e meia antes, porque o autocarro é lento.

O serviço que às 8h45 deixa o Parque Senhora das Dores, no centro da Trofa, só chega à cidade vizinha às 9h20. Especialmente a partir de Castelo da Maia o trânsito na EN 14 aperta. O autocarro quase pára. Nem o velho comboio a vapor, que cruzou estas terras até aos anos 70 do século passado, era tão lento.

Comboio não é alternativa

Da estação de caminho-de-ferro da Trofa, acabada de estrear, saem 45 comboios por dia em direcção ao Porto, vindos de Braga e Guimarães. Outros tantos fazem o caminho inverso. Em média, nas horas de ponta, há um intervalo de dez minutos entre cada um deles. O percurso até Campanhã faz-se em pouco mais de 25 minutos. Percebe-se que a Trofa tem condições privilegiadas para chegar à Baixa do Porto e talvez isso ajude a explicar por que motivo apenas um utente do serviço de substituição tem passe de metro até à Trindade.

O prolongamento da linha C até à Trofa, mais do que os movimentos para o Porto, serviria as localidades intermédias. O comboio só é alternativa para "metade do concelho", lembra a autarca Joana Lima. Para os habitantes de Muro, Alvarelhos e Guidões escasseiam as alternativas para se deslocarem para a sede de concelho ou para outras zonas do Grande Porto.

Neste momento, segundo a Metro do Porto, 400 pessoas utilizam este serviço diariamente. Mas nas horas de ponta, "até há gente de pé", nestes autocarros de 55 lugares, garante um dos motoristas. Chama-se Agostinho Campos e é trofense. Para ele, o metro nem faz grande sentido. "Para as pessoas até é melhor manter os serviços de autocarros. Assim têm 20 locais de paragem, em vez de cinco", explica.

Mas não parece ser isso que a maioria dos conterrâneos pensa - mesmo que nunca tenham reivindicado o metro, como lembra Joana Lima. "O metro foi-nos imposto. E para isso retiraram-nos uma linha que servia aquela população", sublinha. Por isso, vê a obra como uma questão de "justiça", tendo em conta também os compromissos existentes. "No ano passado prometeram-nos que era de vez, o concurso até chegou a ser lançado", insiste, referindo-se a uma intervenção, durante uma visita ao concelho no Verão passado, da então secretária de Estado dos Transportes Ana Paula Vitorino.

As conversas na Trofa vão frequentemente dar a esse discurso, em que a governante garantiu que a obra ia avançar em breve e com direito a via dupla. "É a honra do próprio Governo que está em causa", considera Henrique Cayolla. Este habitante da Trofa diz estar "farto de esperar" e ainda tem esperança que o troço do metro venha mesmo a ser construído.

"Temos que vencer esta luta", sublinha. Foi esse entusiasmo que o levou a lançar, no início do mês, uma petição online onde é exigida a manutenção do calendário de obra que tinha sido definido pela Metro do Porto. O documento - que no final da semana tinha pouco mais de 360 assinaturas - será a base de um protesto que Cayolla quer fazer chegar à Assembleia da República e a Bruxelas. "Vou até onde for preciso", garante.