Milhares de estudantes britânicos declaram guerra contra o aumento das propinas

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A ira dos estudantes virou-se ontem contra a sede dos BEN STANSALL/AFP

Manifestantes invadiram sede do Partido Conservador, mas as críticas não poupam os lib-dem, que na campanha se opuseram à subida dos custos do ensino e agora a apoiam

Entraram à força na sede do partido que lidera o Governo, partiram vidros, subiram ao telhado, fizeram uma fogueira com cartazes no exterior do edifício, desafiaram a polícia durante cerca de cinco horas. Os até agora quase silenciosos protestos contra a austeridade no Reino Unido deram ontem lugar a imagens improváveis, na sequência de uma manifestação de estudantes em Londres, a primeira grande acção contra a coligação entre conservadores e liberais-democratas. Os confrontos provocaram dez feridos ligeiros.

O protesto contra o aumento de propinas, que nalguns casos podem triplicar, foi no essencial pacífico e mobilizou um elevado número de manifestantes, alunos mas também professores. Foram de diferentes lugares, de Sheffield a Aberdeen ou York, segundo a imprensa britânica, e os organizadores quantificaram-nos em mais de 50 mil. Já polícia disse terem sido menos de 20 mil.

Nada fazia prever a violência. Mas algures no percurso da manifestação, em Westminster, por volta da hora do almoço, dezenas de manifestantes romperam o cordão policial e dirigiram-se à Millbank Tower, sede dos tories. De cara tapada por lenços, forçaram a entrada no edifício.

Os repórteres deram conta da surpresa da polícia e registaram que só mais tarde chegaram forças anti-motim. Ao cair da noite, a Scotland Yard, que contabilizava dez feridos, três dos quais polícias, parecia ter a situação controlada, depois de um número indeterminado de detenções. O presidente do Nacional Union of Students, Aaron Porter, citado pela BBC, condenou a violência" e disse que os que vieram para "semear a desordem" deviam "envergonhar-se".

Clegg acusado de hipocrisia

Na origem do baptismo de contestação do Governo liderado pelo conservador David Cameron está a intenção de aumentar as propinas que, em casos extremos, poderão chegar às 9000 libras anuais (cerca de 10.350 euros).

"Eles devem ir buscar dinheiro às pessoas que ganham muito, a quem tem salários de sete dígitos, e não aos estudantes que não têm dinheiro", disse Anna Tennant-Siren, aluna da Universidade do Ulster em Coleraine, na Irlanda do Norte, citada pela AFP.

Se a cólera estudantil incidiu sobre a sede dos conservadores, parceiros maiores da coligação, os liberais-democratas não foram poupados. Segundo a BBC, a polícia impediu os manifestantes de se aproximarem da sua sede, mas o partido foi um dos alvos das críticas dos que desfilaram pacificamente. Segundo o diário El País, alunos da Goldsmiths University of London enforcaram simbolicamente uma imagem do líder lib-dem e vice-primeiro-ministro, Nick Clegg, que antes das eleições prometeu não aumentar os custos do ensino.

O líder estudantil Aaron Porter lembrou que em alguns círculos eleitorais ganhos pelos lib-dem, 15 a 20 por cento dos votantes são estudantes e professores. Em cima da mesa está a possibilidade de recolher assinaturas para forçar eleições intercalares nos círculos dos deputados que reneguem o compromisso de se opor a aumentos de propinas. Segundo a BBC, o primeiro alvo desse movimento seria a circunscrição pela qual Clegg foi eleito. No entanto, recorda a estação, a lei que visa dar aos eleitores o poder de contestar o mandato do seu deputado está ainda a ser discutida.

No Parlamento, antes dos incidentes, as propinas deram origem a uma áspera troca de palavras entre Clegg e a trabalhista Harriet Harman, que o acusou de hipocrisia. Mesmo no seio dos lib-dem a intenção do Governo causa engulhos. Greg Judge, estudante no Centre for Deaf Studies, em Bristol, e dirigente da Liberal Youth, organização juvenil do partido, é disso exemplo: "O Governo precisa voltar a pensar sobre os danos que vai causar a uma geração de jovens, se este aumento for para a frente."