Um livro mais conhecido do que lido

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Ausente das universidades e pouco percorrido até pelos que as defenderam como emblema da repressão do Estado Novo, as "Novas Cartas Portuguesas" permanecem um objecto a explorar. A reedição agora concluída é só o princípio de toda uma operação de resgate internacional

Foi um texto "desterrado na sua própria terra", disse um dia a professora da Universidade de Coimbra Graça Abranches. Quase 40 anos depois da sua primeira edição, as "Novas Cartas Portuguesas" (NCP), da autoria colectiva de Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa e Maria Isabel Barreno, comummente conhecidas como "as três Marias", regressam do passado.

Após a sua publicação em Abril de 1972 (na editora Estúdios Cor, dirigida por Natália Correia) e posterior apreensão, houve algumas reedições, nomeadamente pela Moraes nos anos 80, e, 25 anos depois, pela Dom Quixote. Contudo, o livro nunca chegou a ter uma circulação generalizada, e ainda que reeditado, nunca foi leccionado em universidades portuguesas, à excepção dos mestrados dirigidos por Ana Luísa Amaral. É, por isso, uma obra mais conhecida do que lida. E mais conhecida e lida fora do que dentro de Portugal. Esta nova reedição, afirma Ana Luísa Amaral, é "para o grande público": "O meu sonho era que excertos do livro fossem dados no secundário para ajudar a mudar as mentalidades."

Quando, em 1971, começaram a trocar aquelas que seriam as novas cartas - porque as "velhas" eram as cartas de soror Mariana Alcoforado, "autora" de "Lettres Portugaises", publicadas no século XVII e de autoria contestada, ainda que atribuída a sua "traducão" do português para o francês a Gabriel Joseph Lavergne de Guilleragues -, as três Marias ja eram escritoras com nome próprio. NCP bebe no texto original de Alcoforado, a freira portuguesa que, encerrada num convento em Beja, abandonada pelo seu amante, um cavaleiro francês, escreve cartas violentamente apaixonadas (e profundamente explícitas para a época).

Nas novas cartas que as três Marias escreveram anonimamente, diversas vozes falam da condição da mulher, da sua submissão à ordem patriarcal e burguesa, de violência doméstica e de género, de aborto, violação, incesto, pobreza, censura, e de expressão sexual feminina.

É, por isso, um texto que levanta de forma complexa mas literariamente revolucionária questões relacionadas com o feminismo, o anti-colonialismo e o anti-fascismo. Não foi, por isso, uma surpresa, quando o livro foi apreendido dias depois da publicação pela Censura e as suas autoras processadas por "pornografia". Os ecos internacionais não se fizeram esperar e o texto das três Marias foi usado em França e no Reino Unido, mas sobretudo nos EUA, por feministas radicais como o manifesto que finalmente mobilizava a solidariedade internacional feminista.

Do feminismo ao "queer", de Portugal para o mundo

Para Ana Luísa Amaral, esta edição anotada é o fim de um caminho, e também "um ponto de transição". O projecto "NCP: Três Décadas Depois", explica, nasceu no Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa da Unversidade do Porto, e é financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT): "Comecei a estudar as NCP há uns dez anos atrás, quando iniciei um mestrado em literatura comparada que se chamava 'Dos estudos feministas à teoria queer'. Interessava-me mostrar como as NCP podiam ser lidas não só à luz dos estudos feministas, mas à luz de teorias que questionam a própria noção de identidades estáveis."

Ana Luísa Amaral assume que a ideia de fazer uma edição anotada "surgiu de maneira muito pragmática", quando percebeu que os seus "alunos tinham muitas dificuldades com as referências do livro". A equipa que preparou a reedição integrou alguns desses alunos (Ana Cristina Assis, Cacilda Lopes, Luís Filipe Costa, Lurdes Gonçalves, Marinela Freitas e Marta Pessanha Mascarenhas), e também a professora e investigadora Maria de Lurdes Sampaio.

"O texto", assegura Ana Luísa Amaral, "foi deixado intacto". Junto a ele há 200 anotações, e ainda um índice, uma longa bibliografia contendo os textos usados pelas autoras e o pré-prefácio que Maria de Lourdes Pintassilgo escreveu em 1980.

É só o princípio: até 2013, Ana Luísa Amaral lidera o projecto "NCP, 40 anos depois", que incluirá uma nova tradução em inglês e outra em italiano e envolverá 15 países, 13 equipas e 26 investigadores. O objectivo é estabelecer e estudar o impacto das NCP "quer a nível histórico-social, quer a nível democrático". Estão envolvidas investigadoras como Hilary Owen (Inglaterra), Anna Klobucka e Ellen Sapega (EUA), Jorge Fernandes da Silveira e Lucia Dal Farra (Brasil), Paulo de Medeiros (Holanda), Catherine Dumas (França), e Livia Apa e Roberto Vecchi (Itália). Cabe aos coordenadores em cada país formar "equipas voluntárias de jovens investigadores que farão a recolha de tudo o que foi escrito sobre as NCP em cada país", mapeando o percurso do livro entre Portugal e o mundo.

Desta operação de resgate resultarão dois livros: um em português, "NCP entre Portugal e o mundo", que será lançado em em 2012, com colóquio em Évora; outro em inglês, em 2013, "New Portuguese Letters to the World, International Reception".