Lá fora o eco de "Novas Cartas Portuguesas" foi enorme

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O impacto de "Novas Cartas" no estrangeiro, dos anos 70 até hoje, manteve o texto vivo. Mesmo quando esteve quase morto em Portugal

Quando aos 20 anos chegou a Manchester, de Erasmus, vinda de Coimbra, foi pela mão da professora Hilary Owen que Ana Margarida Martins descobriu "Novas Cartas Portuguesas". Até então, estudante de literatura portuguesa, nunca tinha ouvido falar no livro. "Acho que é muito simbólico ter de sair de Portugal para poder estudá-lo."

Hoje com 31 anos, professora em Cambridge, Martins está a estudar a recepção internacional do livro das três Marias tentando ver "até que ponto as Novas Cartas influenciaram a direcção do feminismo nos anos 70". O livro, explica, "tem uma vida política e uma vida teórica. A minha questão é perceber se a forma como foi apropriado pelas feministas influenciou a vida teórica do livro, o facto de ele nunca ter entrado nos cânones".

A recepção das NCP no estrangeiro, a partir de 1972, foi impressionante. Rapidamente a causa das três Marias mobilizou a acção feminista internacional numa escala sem precedentes, criando uma solidariedade colectiva exemplar. Em Portugal, os jornais não podiam falar, mas lá fora o rastilho explodia: Simone de Beauvoir e Marguerite Duras receberam cópias. "Todas as mulheres ícones do feminismo francês", explica Martins, "estavam familiarizadas com as NCP": Christiane Rochefort e o Movimento Francês de Libertação das Mulheres, Robin Morgan nos EUA, Ruth Escobar no Brasil. Sucederam-se manifestações de protesto em frente a embaixadas e consulados de Portugal, incluindo em Londres, Paris e Nova Iorque. No artigo de apelo à comunidade internacional, Robin Morgan incita as manifestantes a usarem os "dedos" (escrevendo ou telefonando para as embaixadas, para missão portuguesa na ONU ou para escritórios da TAP), os "pés", fazendo piquetes, e a "língua", falando destas três mulheres, contando a sua história. Morgan liderou também a "soirée" em Nova Iorque, com apresentação e dramatização do texto na Broadway. Em 1974 saía a tradução francesa, um ano depois a inglesa (Londres e Nova Iorque), a alemã em 1976. Houve adaptações teatrais em Paris em 1978, mas também nos anos 90, no Reino Unido.

O exemplo da dissensão

Os ecos não vieram só da mobilização feminista. No estudos de género, é também do exterior que surgem as primeiras vozes académicas, como Hilary Owen, da Universidade de Manchester, que há mais de 20 anos trabalha sobre literatura de mulheres portuguesas, ou Anna Klobucka, de Massachusetts-Dartmouth, nos EUA.

Owen lembra que "até ao grande 'boom' das traduções de Saramago, este foi talvez o texto português mais traduzido no estrangeiro depois de Camões". Para ela, ser feminista e ser português é, no fundo, o grande trunfo do texto, ainda que Hélder Macedo tenha escrito na altura que as NCP não podiam ser ambos. O texto ou foi visto como feminista e "por isso, 'desterrado', associado à campanha internacional", ou, em Portugal, como "parte da tradição anti-fascista, demasiado do seu tempo, e nesse caso ultrapassado, sem relevância no pós-fascismo", explica.

Mas o seu legado está hoje na literatura portuguesa. As NCP apresentam uma leitura muito própria do feminismo francês da época, "mas desenvolvem um mapa de leitura teórico útil, à luz do qual se pode ler literatura de mulheres portuguesas, em vez de se usarem teorias anglo ou francófonas". Klobucka diz que essa possibilidade teórica mostra que o texto está à frente do seu tempo. No feminismo português, o impacto das NCP tem a ver com "a resistência a uma posição unívoca e monolítica, mostrando a dispersão de uma série de posições ideológicas entre as mulheres", diz. O livro assume a discordância e o conflito "que o feminismo anglo-americano demorou a aceitar até aos anos 80". O feminismo português tem isso desde o princípio por causa das NCP. "É extraordinário como conseguem reproduzir ao mesmo tempo a solidariedade feminina e o reconhecimento da discórdia."