Crítica

Inside Job

Documentário "militante" sem o populismo de Michael Moore

Um documentário sobre "a verdade sobre a crise económica global"? No papel, a ideia evoca qualquer coisa de grande reportagem de canal temático de notícias (e, vamos ser sinceros, o título português não ajuda nada). Na prática, o que o documentarista americano Charles Ferguson faz é aplicar a lógica cronológica da narrativa ficcional tradicional a uma história verdadeira. E fá-lo com rigor, pontaria, inteligência e "savoir-faire", sem necessitar de mais do que os factos e os depoimentos de uma série de economistas, jornalistas, políticos e comentadores para explicar como tudo se passa e despertar a indignação junto do espectador mais insensível.

"Inside Job" é um documentário "militante", no sentido em que quer chegar ao máximo de gente possível e pô-las a pensar nas coisas, mas não é uma militância à Michael Moore - o populismo sensacionalista foi extraido cirurgicamente, a linguagem visual aproveita inteligentemente a dinâmica gráfica das novas tecnologias.


O resultado é um documentário sólido e inteligente na tradição investigativa liberal americana, mas onde não basta ter Matt Damon a narrar, écrã panorâmico e grafismos sofisticados para se ter um objecto mais do que funcional, que exista para lá da função objectiva de explicar as razões da crise económica às criancinhas. Digamos que, com este mesmo material, Errol Morris (se para aí estivesse virado) faria uma obra-prima - mas, para comprovar as "vistas curtas" do circuito de distribuição português, a mesma distribuidora que se apressa a lançar em salas "Inside Job" é a mesma que tem passado a vida a ignorar a existência dos filmes de Morris...