Comboio com 123 toneladas de resíduos nucleares

Milhares manifestam-se na Alemanha contra o “Tchernobil sobre rodas”

O protesto foi uma das maiores concentrações anti-nucleares dos últimos anos
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O protesto foi uma das maiores concentrações anti-nucleares dos últimos anos Christian Charisius/Reuters

O comboio de 123 toneladas de resíduos nucleares, que o canal de notícias France 24 descreveu como um “Tchernobil sobre rodas”, conseguiu ontem chegar à Alemanha.

Antes, o seu trajecto de 1000 quilómetros a partir de França tinha sido modificado durante a noite, devido a uma primeira manifestação em Cahen, na Normandia. Na pequena localidade de Gorleben, no Nordeste da Baixa Saxónia, junto ao rio Elba, centenas de militantes antinucleares aguardavam a composição com onze contentores a que o jornal britânico The Daily Telegraph chamou “O comboio do Inferno”, retomando a terminologia dos ecologistas.

Antes disso, porém, dezenas de milhares de manifestantes participaram em Dannenberg, ali perto, numa das maiores concentrações antinucleares dos últimos anos, dado o desagrado de muitos com a chanceler federal Angela Merkel, que decidiu prolongar a existência das 17 centrais nucleares alemãs. Os organizadores calcularam ter conseguido mobilizar 50.000 manifestantes, mas a polícia só conseguiu dizer que eram “mais de 10.000”. Para garantir que os resíduos chegavam ao destino foram mobilizados 16 mil polícias.

Os resíduos radioactivos saíram da Alemanha, foram processados numas instalações que o grupo francês Areva tem na Normandia e regressaram depois ao país de origem. O transporte de lixo atómico entre a central francesa e o depósito provisório em Gorleben, na Alemanha, é feito desde a década de 1990. Apenas 10 por cento do material processado pode ser novamente usado, explicou a Deutsche Welle, empresa alemã de radiodifusão para o estrangeiro.

Angela Merkel pediu aos participantes na grande concentração de Dannenberg que evitassem cometer actos criminosos ao tentarem deter as carruagens-contentores cuja taxa de radioactividade poderia atingir níveis históricos, segundo organizações ecologistas como a Greenpeace e o Grupo de Acções Não-Violentas Antinucleares.

“Merkel provocou a sociedade e este é a resposta popular”, disse Juergen Trittin, dirigente dos Verdes alemães, que nos últimos meses dispararam nas sondagens e atingiram uns inéditos 24 por cento das intenções de voto, ligeiramente à frente dos sociais-democratas. A líder do grupo parlamentar ecologista, Renate Künaste, até já anunciou que em 2011 se candidata a burgomestre de Berlim.