O tempo que o tempo tem

Clara Andermatt e Marco Martins foram buscar os intérpretes à dança e ao teatro: aqui não se sabe bem onde acaba um e começa o outro
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Clara Andermatt e Marco Martins foram buscar os intérpretes à dança e ao teatro: aqui não se sabe bem onde acaba um e começa o outro Pedro Cunha

Clara Andermatt, coreógrafa, e Marco Martins, cineasta e encenador, fizeram do tempo a matéria-prima de uma aventura coreográfica e teatral, "Durações de um Minuto", que se estreia hoje no São Luiz, em Lisboa. Até 28 de Novembro, eles descobrem, juntos, o que podem fazer enquanto esperam

No princípio era o tempo, como na lengalenga infantil em que o tempo pergunta ao tempo quanto tempo o tempo tem. O que o tempo lhe responde é uma forma de nos perguntarmos o que fazemos com ele, e aquilo a que se propuseram Clara Andermatt, coreógrafa, e Marco Martins, cineasta e encenador, respondendo ao desafio de Jorge Salavisa, na altura director artístico do São Luiz - Teatro Municipal, para criarem uma peça a dois. Chamaram-lhe "Durações de Um Minuto" não porque seja sobre o tempo, mas porque (e dizer isto não é dizer tudo) é sobre nós.

Não se conheciam, apesar de Marco já ter seguido Clara. Já se tinha interessado por aquele corpo, aquela forma "particular" de movimento que nela se traduz por uma manipulação desconcertante dos modos de existir num espaço. Numa das cenas de "Alice", o filme que o revelou, Nuno Lopes, o pai que perdeu a filha, segue uma mãe que leva uma criança pelo braço. Essa mãe é Clara. Essa ideia de seguir alguém está nesta peça, mas Clara não está em palco, nem Marco a segue. Agora estão lado a lado, testando as ideias de um no outro, procurando "ajustar-se a essa ideia de trabalhar em conjunto". "É mais fácil, não sei se é mais fácil", diz Clara. "Ficas a pensar no que disseste e tens que saber defendê-lo", contrapõe Marco.

A peça partiu de um dado geofísico, não isento de polémica: por efeito do terramoto que em Fevereiro abalou o Chile, o eixo da Terra deslocou-se e, por isso, os dias ficaram 1,26 microssegundos mais pequenos. Já tinha acontecido antes: estudos indicam que o terramoto que provocou o tsunami de 2004 no Sudeste Asiático diminuiu os dias em 2,62 microssegundos. Mas o que é isso em, digamos, tempo real?

Para os dois autores, foi a oportunidade para relançar questões sobre o nosso comportamento em sociedade: sobre o modo como nos relacionamos com o outro, como o nosso corpo é afectado, como reagimos à sua presença, como é que saímos daqui. O que apresentam a partir de hoje, e até 28 de Novembro, no São Luiz não é necessariamente um modelo social, mas aproxima-se de uma hipótese de representação da sociedade. "Não tivemos qualquer intenção de caracterizar ou definir este ambiente, e as pessoas que nele vivem", nota Clara. "Pelo contrário, o nosso trabalho foi retirar e limpar referências", acrescenta Marco.

Criada de raiz - "era muito mais fácil se não fosse assim", confirmam os dois -, a peça parte de textos já publicados ou inéditos, e escritos propositadamente, por Gonçalo M. Tavares, um dos autores de eleição de Marco Martins. "Tínhamos em vista quatro ou cinco nomes, mas, depois, tornou-se evidente que seriam do Gonçalo as palavras a caber aqui". Reconhecemos nos diálogos o "pessimismo antropológico e cultural" que caracteriza a escrita de Tavares, conforme sublinhava Pedro Mexia na última edição do Ípsilon (29 Outubro). "A brutalidade dos acontecimentos do século XX exige, a qualquer escritor, um pessimismo antropológico firme. É uma responsabilidade moral e literária", explicava o escritor nessa entrevista. "O espaço da literatura pode ser tudo e mais alguma coisa, mas antes de mais é um espaço de vigilância à distância, de uma atenção constante. É um pouco como estar a repetir constantemente: atenção!, não te esqueças do século XX, não te esqueças do século XX", acrescentava ainda.

Quem conhecer os textos de Gonçalo M. Tavares saberá que não vai encontrar em "Durações de Um Minuto" uma narrativa, mas percursos narrativos. O autor escreveu no programa que seria possível imaginar "uma pessoa colocada diante do espelho, com um cronómetro ao seu lado, a observar o seu rosto, de minuto a minuto, tentando testemunhar as suas próprias alterações intelectuais. Poderemos, levando o absurdo até ao fim, pensar em alguém que abandonasse por completo a vida e as suas experiências, e que canalizasse toda a sua energia para a observação do processo no qual ela se torna uma pessoa mais inteligente. Ou, então, alguém que acompanha a leitura de um livro denso dirigindo-se, de hora a hora, ao espelho para confirmar a boa evolução da sua inteligência".

Uma caverna intemporal

Os textos de Gonçalo M. Tavares configuram uma espécie de terreno-padrão que permite o cruzamento, e não a justaposição, dos universos de Marco Martins e de Clara Andermatt. Ele a criar paisagens onde a errância parece ser um estado mental, ela a buscar na ligação ao chão uma forma de entender o lugar do indivíduo. Um e outro apostados em criar um território partilhável, que sugira em vez de determinar e que pergunte não apenas que futuro há mas como é que chegámos aqui.

Neste território, é difícil dizer onde acaba a dança e começa o teatro. Marco e Clara "evitaram o retalho". Preocupou-os encontrar um olhar conjunto que não fosse menos do que o olhar individual, "mas o modo como as coisas foram apareceram não foi premeditada", explica Marco. "Foi instintiva", acrescenta Clara. "Improvisámos imenso", continua a coreógrafa, "e as coisas foram encontrando o seu lugar".

"Durações de Um Minuto" é um percurso no tempo de vários corpos deslocados que se encontram, por acaso ou premeditação, no mesmo espaço, ao mesmo tempo, durante um período indeterminado. Os dois criadores escolheram um elenco de "intérpretes-criativos" que pudessem "responder, até, a dúvidas" deles. Pelo palco do São Luiz, transformado numa alegórica caverna intemporal, passam bailarinos (Sam Louwyck, São Castro e a dupla Vítor Roriz e Sofia Dias, aqui para algo completamente diferente daquilo a que nos habituaram: um movimento mais interno, mais dependente do outro), actores (Ivo Canelas, Romeu Costa, Nuno Lopes e Carla Maciel) e as figuras etéreas, observadoras experientes, de Luna Andermatt, mãe de Clara e figura tutelar da dança portuguesa, e Ana Diaz, que, tendo atravessado grande parte do século XX, tem um percurso de resistência à guerra.

Cruzam-se aqui também outros cúmplices, de parte a parte. João Lucas, do lado de Clara, responsável por um desenho sonoro que reestrutura os fragmentos narrativos. Artur Pinheiro, do lado de Marco, a assinar uma espantosa cenografia que explora a estrutura interior do palco do São Luiz, forrando uma parede de colunas sonoras que Lucas potencia, e "que se funcionassem todas provocavam cá um barulho", diz uma das personagens. E há ainda o desenho de luz de Nuno Meira, insistindo nos castanhos, como se fossem uma recorrência (ou uma coincidência) das peças de teatro que partem do universo de Gonçalo M. Tavares ("Sobreviver", encenação de Lúcia Sigalho, São Luiz, 2006; "Jerusalém", encenação de João Brites, Centro Cultural de Belém, 2008).

Dentro da caverna, as personagens que sobreviveram ao "processo de limpeza que se foi fazendo ao longo do trabalho". Chamam-se Luna e Ana, como Luna Andermatt e Ana Diaz, e, embora cheguem mesmo a usar a sua própria história, não são criaturas autobiográficas. Mas ver Luna Andermatt explicar, autobiograficamente, como dançou "Pássaro de Fogo", de Mikhail Fokin, e dizer que há duas coisas que ama na vida, "a arte e o sangue", e que, por elas, "deitava os 'grands jetés' [passo do bailado clássico] para trás e não para a frente", é mágico.

Por terminar

Há uma velocidade na peça que surge da urgência do movimento de Clara Andermatt, da construção elíptica das palavras de Gonçalo M. Tavares e do modo como Marco Martins fixa os corpos, sem espaço e materialidade. São vectores fundamentais para uma peça que se constrói a partir de dados, de datas, de factos, de acções que caracterizam as personagens - "que as materializam", diz Marco.

Surgem datas como se fossem argumentos definitivos, e memórias que servem de alerta. Há momentos nos quais os corpos caem numa letargia, como se materializassem a errância, e outros em que reagem intuitivamente, quase sempre fisicamente, como se a descarga de energia fosse o antídoto para a sobrevivência. Há momentos em que o tempo os controla, como quando uma voz inicia uma contagem decrescente que parece cavar ainda mais fundo no interior daquela caverna. "Estão presos ali, uns aos outros", descrevem os dois encenadores. E, nesse reconhecimento, a evidência leva "supostamente" à ordem, figurada num círculo que os coloca em posições iguais.

Presos, manietados, dependentes uns dos outros (e do modo como, individualmente, vão escolher "sobreviver"), são personagens que os dois autores não dão por terminadas. "Todos os dias descobrimos outras camadas para algo que achávamos já conhecer", admitem.

E é por isso que também os encenadores estão presos àqueles corpos, procurando encontrar formas de organização que deixem abertas possibilidades de interpretação. Tal como o tempo, também eles, quando tiveram de responder quanto tempo o tempo tinha, responderam ao tempo que o tempo tem tanto tempo quanto tempo o tempo tem.