A morte fica-lhes tão bem

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Ver Jérôme Bel e Anne Teresa de Keersmaeker na mesma peça é acreditar que aquilo que seria apenas possível numa realidade paralela se materializa à nossa frente. Mahler juntou-os mas nenhum venceu o outro

Durante meses os rumores alimentaram as conversas de corredores do meio da dança. Dizia-se que ele gritava com ela e ela respondia com murros na mesa. Dizia-se que voavam objectos de uma ponta à outra do corredor mas que depois caíam nos braços um do outro, reconhecendo que era a melhor oportunidade para dizerem "o que há muito queriam dizer". Dizia-se que seria uma peça que nunca iria ver a luz da estreia. E dizia-se ainda que seria um estalo na cara de todos. Sem luva branca. 

Ele é Jérôme Bel, eterno enfant terrible da dança francesa. Detonador de estruturas coreográficas, há muito num caminho sem retorno onde a dança, continuando no centro da pesquisa, já não se vê, já só se discute. "Sinto-me em casa no meio do nada", diz-nos. Ela é Anne Teresa de Keersmaeker, rainha da dança contemporânea no lugar agora deixado vazio por Pina Bausch, e coreógrafa que definiu os modos de passagem de uma dança presa à forma para uma que a utiliza em função do movimento. "Precisava encontrar uma nova forma de interrogar a relação entre a dança e a música", diz ela. 

Juntos, num gesto que ninguém podia prever, criaram 3 Abschied, a partir da última secção da obra A Canção da Terra, de Mahler, e cuja estreia em Fevereiro fez acorrer ao Théâtre de la Monnaie, em Bruxelas, os pesos pesados do circuito de programação. Entretanto, começou uma esparsa digressão que hoje está no Japão, há duas semanas esteve em Paris, daqui a uns dias estará na Holanda e uns meses mais tarde nos Estados Unidos, em datas pontuais, quase contrárias à expectativa que a peça causou antes da estreia.

"E, para mim, já são imensas datas", diz-nos Jérôme Bel quando o encontramos no Café Mistral, nas arcadas do Théâtre de la Ville, em Paris, co-produtor da peça e um dos raros teatros que, não sendo de ópera, apresentam a peça. 

3Abschied foi pensado para ser apresentado em teatros de ópera porque é de música e da nossa relação com ela que a peça trata. Abre com uma gravação registada em CD, coloca uma coreógrafa a cantar - "ela não sabe quão mal canta, mas também não sou eu que lhe vou dizer", confidencia-nos Bel, "adoro esses riscos que ela toma" -, tem uma orquestra de 13 elementos em palco que não faz "nada" durante dois terços da peça para depois interpretar não a obra de Mahler mas uma transcrição feita por Schönberg, pergunta aos espectadores se percebem, realmente, as palavras que se cantam, traduzindo-as e analisando-as frase a frase e, no fim, deixa o palco vazio, em silêncio, sem respostas. 

Prazer que vem da dor

"Isto só se pode fazer dentro das instituições. E ou se faz dentro delas ou não se faz", diz Bel. "Especificamente em teatros de ópera. E quanto menos vezes se fizer, melhor", acrescenta. "Fazer ouvir uma gravação num teatro de ópera, tendo uma orquestra à disposição, é a última das provocações", conta, satisfeito. "Mas isto só se pode fazer dentro de salas como essas. Não produz o mesmo impacto, nem faz qualquer sentido, fora delas."

Essa ideia de evento está na base da peça, não apenas porque a representação da morte em palco, para a geração de coreógrafos a que Bel e Keersmaeker pertencem, perdeu o sentido de ilustração, mas porque a sua singularidade advém da impossibilidade de com ela se poder ter uma relação distendida no tempo. "A repetição não me interessa", diz Bel. "É o contrário da própria criação." "Ao provocarmos um conflito [na recepção] da obra de Mahler, é a nossa própria prática que interrogamos", dizem em entrevista publicada no programa de sala do Théâtre de la Ville.

"Através daquilo de que esta peça fala, a aceitação da morte, e a maneira como fala disso, num lied romântico alemão composto a partir de três poemas chineses, o nosso posicionamento filosófico, estéticoé exposto em todas as direcções, e é essa fecundação mútua da música com a dança que nos interessa", dizem. "O objectivo era o de dar uma visão actual e não o de manter a obra tal como ela é, como uma jóia preciosa, na sua caixinha, sem que se pudesse interrogar o seu impacto. Para nós, tratava-se de compreender o que ela nos diz hoje, e perceber como é que esta obra centenária nos pode ajudar a compreender os dias de hoje", dizem os dois autores.

Os dias de hoje são, para Bel e Keersmaeker, dias de "pressão, de responsabilidades, de expectativas, de gestão", descreve o coreógrafo. "Não sei como é que ela o faz [Keersmaeker dirige a sua companhia, Rosas, residente no Théâtre de la Monnaie, e a escola, PARTS, onde Bel costuma dar aulas]". "Anuncia-se Jérôme e Anne Teresa e o mundo enlouquece. Querem saber quem matou quem", ri-se. E quem foi? "Houve alturas em que não sei como saímos vivos dos ensaios", confidencia. "Mas não há nada como trabalhar em dupla, as decisões são a dois, as responsabilidades partilhadas, é um alívio." Um e outro falam de "luxo artístico", de um confronto de personalidades intelectuais "quase opostas", "ela virada para o pensamento oriental, [ele] um pós-estruturalista ocidental", de "um prazer que vem da dor", diz ele novamente em gargalhadas.

A ideia original foi de Keersmaeker, conhecida pela sua relação próxima com o trabalho de compositores como Mozart (Mozart Concert Árias, 1993), Bartók, Beethoven, Schönberg (Soirée Repertoire, 2007), Berg, Wagner (Woud, 1997) e Steve Reich (Fase, 1982), bem como pela encenação de óperas. A intenção era a de coreografar o poema, prosseguindo uma série de inversões que nos últimos anos tem feito da sua obra a solo um contraponto, quase bipolar, da sua obra coral. Mas a ideia caiu por terra quando o maestro Daniel Barenboim, que Keersmaeker queria a dirigir a obra, lhe disse que era absurda. "Vocês na dança estragam sempre tudo. Esteja quieta. Vá lá para o Mozart que isso você sabe fazer", disse. Keersmaeker conta-nos este episódio no início da peça, fala-nos da sua frustração e da sua vontade em prosseguir e contou-o a Jérôme Bel que logo ali encontrou o motivo para o fazer. E para o fazer sem poupar ninguém. "Resisti imenso ao convite. Mas, depois, como podia recusar a provocação dela?", pergunta-nos Bel.

Mas é preciso dar-se um passo atrás. Ter Keersmaeker a falar numa peça é razão para surpresa tão grande como ter visto Greta Garbo a rir. Keersmaeker não ri, cerra o olhar no público. Keersmaeker não fala, afirma. Keersmaeker não duvida, pensa. 3 Abschied é isto tudo, como se fosse mais um dos espectáculos de Bel sobre dança e os seus intérpretes, e dos quais vimos Isabel Torres e Pichet Klunchun & Myself no Alkantara 2006 e, no próximo ano, vamos poder ver Cédric Andrieux, no Maria Matos e Serralves.

Respeito pela obra?

Abschied significa "partida" e esta peça é sobre a morte, ou a aceitação da morte, e os autores decidiram representá-la em palco três vezes. Literalmente. Keersmaeker morre em cena, depois de nos esgotar o fôlego a fazer o que faz melhor, elevar-se acima de qualquer representação coreográfica e deixar o corpo ao abandono do movimento num palco negro, árido, distante. A orquestra Ictus, que os acompanha, morre em cena, como se materializasse o poema que interpretam, fruto de uma nostalgia face à perda, construída por um compositor que enfrentava uma doença que seria mortal. E Kathleen Ferrier, que ouvimos como primeira versão numa gravação registada num CD, cantou-a em 1952, aos 41 anos, quando já sabia que ia morrer vítima de cancro da mama. 

"Tínhamos tantas ideias sobre Abschied que decidimos desmultiplicá-las, repeti-las de modo a podermos tratá-las sob diferentes ângulos", explicam. "Podemos dizer que não respeitamos a obra, pelo menos no sentido clássico do termo, porque a colocamos em perigo. Somos os dois aquilo que se chama "artistas contemporâneos", e cada um produz, à sua maneira, um "teatro experimental", que tenta responder à nossa realidade contemporânea", acrescentam. 

Bel diz-nos que foi isso que lhe interessou no convite de Keersmaeker, de quem se diz admirador "de há muito tempo", mas sobre a qual nunca se debruçou para lá da curiosidade pelo seu rigor - "coisa que a mim me custa", acrescenta. 

A peça tem dividido as salas, entre a fúria da estreia, ao melhor estilo inflamado que só as casas de ópera podem produzir, e o gelo fascinado do Théâtre de la Ville, numa letargia que pode ser entendida como uma incapacidade em discutir (uma vez mais) o futuro da dança. "Ou o da música", acrescenta Bel.