Crítica

A idade da inocência

Inspirada em projectos semelhantes que existem por essa Europa fora, a Companhia Maior formou-se no seio do CCB com a ambição de suster um pouco a voragem do tempo, não só na vida dos participantes, mas também no espírito da comunidade alargada a quem se dirige o espectáculo, constituída por um público nacional, dado que o espectáculo "Bela Adormecida" será visto de Bragança a Portimão e do Porto a São Miguel, e muitos dos participantes são personalidades públicas acarinhadas por todos. É um projecto de teatro comunitário à escala nacional. Mas o que é comunitário é bom. O ponto de partida é muito interessante. E se, ao invés de permanecer jovem, a Bela Adormecida fosse envelhecendo enquanto dormia? Este motor de ignição ficcional permitiu adaptar uma história popular para personagens de idade consentânea com a idade dos actores e ao mesmo tempo quase obrigava a que se tratasse os temas da memória e do conhecimento, fulcrais tanto para a nova versão da fábula como para este colectivo de actores. As falas e as acções decorrem desse ponto de partida e desses temas. A prosa de Tiago Rodrigues é activa: a formulação do raciocínio das personagens funciona como máquina de pensamento para os espectadores.

Mas esta dramaturgia não vive apenas de enredo, personagens ou diálogo; pelo contrário, o efeito que ela tem depende sobretudo do que vemos aquelas pessoas fazer, algumas das quais todos os portugueses conhecem, na medida do possível, do tempo em que só havia uma emissora de televisão. É neste ponto que se revela a destreza e versatilidade da encenação, também de Tiago Rodrigues, assistido por Cláudia Gaiolas, ao lidar com a dramaturgia do espectador mais do que com a dramaturgia das personagens - isto é, com o que significam para o público as acções dos actores independentemente do contexto de ficção, independentemente do que significariam para a personagem fictícia que cada actor encarnasse. Imaginar o que acontecerá aos espectadores quando virem os actores a interpretar um rei ou a executar uma coreografia parece ser mais importante, do ponto de vista destes criadores, do que imaginar o que acontece às personagens. Além disso, o texto foi escrito com a contribuição de histórias dos próprios actores, reforçando a espectacularidade originada na pura teatralidade destas pessoas, dada não só pelas rugas, mas por uma presença extraordinária em palco.

É por isso que este espectáculo é tão característico de um dos veios do teatro contemporâneo europeu actualmente mais produtivos, o que mistura documentarismo (a incorporação de factos reais) com performance (a integração de dados biográficos e a apresentação do eu em cena), com drama (a procura da simpatia do público), com ritual (a transição dos sujeitos para outro estatuto simbólico). Num mundo onde a ficção dramática também vai a casa, em filmes, telenovelas e séries de TV (já para não falar de telejornais e concursos), o teatro está cada vez mais livre para fazer valer os trunfos da proximidade física e da imediatez pessoal. Esta "Bela Adormecida" faz a ligação directa das formas mais recentes de criação teatral com um passado comum a todos, mesmo às vanguardas.

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