Morreu João Paulo Seara Cardoso, o senhor marionetas

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João Paulo Seara Cardoso

Criou para a RTP A Árvore dos Patafúrdios, Os Amigos do Gaspar, Mópi e No Tempo dos Afonsinhos

Sabia como ganhar muito dinheiro e ser famoso, mas João Paulo Seara Cardoso preferiu a exigência e o desassossego. O fundador do Teatro de Marionetas do Porto (TMP), em 1988, destruiu, à machadada, o cenário da peça Vai no Batalha, que parodiava o cavaquismo e o novo-riquismo do Portugal dos anos 90. Um sucesso com lotação esgotada na Invicta, mas que não chegou a ser exibido em Lisboa por vontade do criador.

"Ter muito público não é o mais importante. O que realmente importa é fazer um teatro em que acreditamos, com grande honestidade", disse o encenador portuense de projecção internacional, que gostava que os seus espectáculos transmitissem "intranquilidade", não fossem "fast-food".

Ao contrário de Miséria, personagem principal da peça homónima do TMP, João Paulo Seara Cardoso não conseguiu fazer um pacto com o diabo para viver mais 20 anos. Faleceu anteontem à noite, aos 54 anos, vítima de cancro. O seu funeral realiza-se hoje, pela 14h00, na igreja de Cedofeita, no Porto.

Seara Cardoso frequentou os cursos do Institut National d"Éducation Populaire e do Institut International de la Marionnette. Teve como mestres Marcel Violette, Lopez Barrantes, Jim Henson (criador de Os Marretas) e João Coimbra. Iniciou a sua actividade teatral no Teatro Universitário do Porto. Apaixonado por automóveis, estudou Engenharia Mecânica, na Universidade do Porto, e competiu em todas as provas de Pop-Cross disputadas em Portugal, tendo vencido o respectivo Troféu Nacional, em 1981. No todo-o-terreno, foi piloto semiprofissional da UMM até 1992.

A paixão pelas marionetas e pelo teatro acabou por vencer. Porém, a Engenharia Mecânica também foi útil. Elogio da interdisciplinaridade: "Aprendi a imaginar as coisas no espaço e a ter a capacidade de as desenhar e projectar, o que tem muito que ver com a minha prática ligadas às marionetas e com o lado mecânico do teatro."

Dedicou-se à pesquisa e reconstituição do Teatro Dom Roberto, fantoches populares portugueses, e recebeu de mestre António Dias a herança desta tradição secular, que levou a inúmeras aldeias e vilas

Para a RTP, criou e dirigiu séries infantis que marcaram gerações: A Árvore dos Patafúrdios, Os Amigos do Gaspar, Mópi e No Tempo dos Afonsinhos. Escreveu cinco livros de literatura infantil e a sua primeira obra, Dás-me um tesouro?, recebeu um prémio da Associação Portuguesa de Escritores. Foi director artístico e fundador do TMP, tendo encenado todos os espectáculos apresentados pela companhia. As suas criações foram apresentadas um pouco por todo o mundo: da China à Europa, passando por Cabo Verde.

Com a mulher e coreógrafa Isabel Barros, mãe das suas duas filhas ainda crianças, co-dirigiu dois espectáculos que cruzam marionetas e dança: 3.ª Estação e Hamlet Machine. Para a companhia Visões Úteis, dirigiu três espectáculos. Encenou autores como Beckett (uma das suas paixões), Ionesco, Al Berto, Shakespeare, António José da Silva, L. Carrol, Almada Negreiros ou Duras, entre outros.

Igor Gandra, director do Festival Internacional de Marionetas do Porto, destaca a "exigência muito grande e a intransigência permanente com a mediania" como alguns dos traços principais da personalidade de Seara Cardoso. Já a antiga vereadora da Cultura da Câmara do Poro, Manuela Melo, atesta que "as marionetas em Portugal são uma coisa antes dele e outra depois dele". Ou, como diz Mário Moutinho, director do Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica: "Fez a reconstituição da história da marioneta e deu-lhe dignidade."

A Plateia, associação dos profissionais de artes cénicas, de que Seara Cardoso foi membro fundador, garantiu, em comunicado: "Para o seu projecto mais recente, a conclusão do Museu da Marioneta, na Rua das Flores, cá estaremos para garantir que se consolide. Porque é preciso." Outra garantia foi dada por Sofia Carvalho, produtora do TMP: "Somos uma equipa coesa, vamos continuar o trabalho dele, mas a companhia nunca mais será a mesma."