Refer admite recorrer à variante de Alcácer para reabrir Linha do Sul até ao Algarve

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Ontem ainda cheirava a carvão no local do incidente Nuno Ferreira Santos

Variante ainda não está homologada, mas a sua abertura até já estava prevista para este mês. CP teve de encontrar alternativas rodoviárias que obrigam clientes a fazer transbordos

A ligação ferroviária Lisboa-Algarve, que está parcialmente cortada desde anteontem devido a um descarrilamento de um comboio de mercadorias, poderá ser retomada já hoje, se a Refer der por concluída a variante de Alcácer, autorizando a sua abertura à exploração. Trata-se de uma linha nova, de 29 quilómetros, que constitui um atalho à actual Linha do Sul, precisamente na zona onde na terça-feira ocorreu aquele acidente.

A Refer está a estudar a possibilidade de, mesmo sem a linha estar homologada pelo IMTT (Instituto da Mobilidade e dos Transportes Terrestres), permitir que a CP a utilize, assegurando assim o (quase) normal funcionamento dos Intercidades e Alfas Pendulares entre Lisboa e Faro, bem como os regionais e os comboios de mercadorias.

Os comboios regionais da CP deixaram de poder circular entre Setúbal e Grândola, tendo a companhia assegurado uma alternativa rodoviária que obrigava os passageiros a fazer transbordo. No caso dos Alfa Pendulares entre a capital e o Algarve, a ligação por autocarro tem-se feito desde Lisboa até Grândola. Um transtorno para os passageiros que poderá ser resolvido, se a Refer libertar de facto a variante de Alcácer, que custou 159 milhões de euros e cuja inauguração até estava prevista para este mês.

Ontem, no local do acidente, ainda cheirava a carvão, poucos metros depois da ponte ferroviária de Alcácer do Sal. Mil e duzentas toneladas saíram dos carris, disse uma responsável da Refer ao PÚBLICO. Depois de passar a ponte, o comboio da CP Carga, que transportava carvão de Sines para a Central do Pego (Abrantes), deixou quatro vagões tombados no chão. Outros quatro também descarrilaram.

A causa mais provável do descarrilamento - o inquérito ainda mal começou - terá a ver com o sobreaquecimento dos freios de um dos vagões. Foram encontradas peças soltas de um vagão que indiciam que os freios terão ficado "colados" a uma das rodas. Com o comboio em movimento, o freio e a roda terão aquecido ao ponto de ficarem incandescentes e terem-se partido, provocando o descarrilamento.

Durante quatro quilómetros e até que parte da composição tombasse, o maquinista "não se terá apercebido" de que um dos vagões ia com pelo menos uma das rodas fora dos carris, afirma Vítor Pereira, um dos engenheiros da Refer responsáveis pelos trabalhos de remoção e reparação do troço ferroviário afectado.

Em toda a extensão da ponte, as travessas de madeira - que aguentam a linha do comboio - estão rachadas, evidenciando que uma roda lhes passou por cima. Antes da ponte, as travessas são de betão, mas também se nota que foram cortadas pelo vagão descarrilado. Só a zona principal do acidente tem cerca de 300 metros. E os trabalhos de remoção e reparação, segundo disseram alguns trabalhadores ao PÚBLICO, podem prolongar-se até ao próximo fim-de-semana.