Crítica

Quando os patrões são nossos amigos

Com a chegada de Hitler ao poder, na Alemanha, em 1933, Bertolt Brecht parte para o exílio: Dinamarca, Suécia, Finlândia e, depois, Estados Unidos. No Verão de 1940, na Finlândia, instala-se na propriedade da escritora e intelectual Hella Wuolijoki. Entusiasma-se com a história de "A Princesa da Serradura", uma comédia de enganos da autora finlandesa e, com ela, reescreverá o texto. Assim, "O Senhor Puntilla e o seu Criado Matti" aparece no meio de peças como "As Espingardas da Senhora Carrar", "Terror e Miséria do Terceiro Reich", "A Boa Pessoa de Sé-Chuão" ou "Mãe Coragem e os Seus Filhos", textos com uma tensão política exponencialmente maior.

A atracção por este hiato cómico justifica-se por dois motivos. Por um lado, pela proximidade com alguns temas caros à dramaturgia brechtiana: narrativas de aprendizagem, consciência de classe, microcosmos laboral, a bondade inata em colisão com os valores sancionados pela sociedade. E, por outro lado, por uma nostalgia pela paz - na vastidão da paisagem finlandesa, que convida à solidão e ao individualismo, no exílio, animado com a perspectiva de Hitler perder a guerra, Brecht deixa-se seduzir pela comédia, pelo teatro popular e pela história do senhor Puntila, que revela qualidades humanas extraordinárias, um elevado sentido de justiça e um desprezo pela hipocrisia quando está bêbado, e que, uma vez sóbrio, cai no estigma do patrão tirano. Sempre acompanhado pelo seu fiel criado Matti, homem culto e intelectualmente superior.

João Lourenço é sensível a esta singularidade temática e formal. O espectáculo sinaliza muito bem o fascínio pela vastidão finlandesa, fria, sóbria e austera, mas também o ritmo cómico. Assim, a limpeza e simetria que normalmente associamos às montagens no Teatro Aberto, aqui servem extraordinariamente o espectáculo. O palco aparece dominado por cinco grandes ecrãs onde serão projectadas imagens estáticas de paisagem natural, pequenos vídeos com as cenas representadas fora de cena, e projecções em tempo real dos actores e até do público. De resto, no palco estará uma arena em forma de ferradura, com múltiplas funcionalidades, que expressa bem o convite que o espectáculo faz a assistirmos a "ver o bicho andar, com muita ligeireza": ou seja, a olharmos bem para o circo proposto pelas personagens.

O ritmo cómico é assegurado pela inteligência, vitalidade e gozo das interpretações de Miguel Guilherme (Puntila) e de Sérgio Praia (Matti), actores que sabem ir resgatando permanentemente o espectáculo para níveis elevados de cumplicidade e energia. E, simultaneamente, sabem não criar estereótipos: nem Puntila é sempre empático nas bebedeiras nem Matti sempre moralmente intocável (veja-se a relação com as mulheres): ambiguidade necessária à estratégia brechtiana. Mas este ritmo é também garantido pela excelente música de Shahryar Mazgani e pela prestação dos músicos (João Fernandez, Miguel Tapadas e Vasco Sousa) que ligam as cenas com pequenas intervenções musicais e que participam em alguns quadros, dando a tudo grande dinamismo. Mas o tom cómico é também assegurado pelos figurinos de Bernardo Monteiro, que veste esta distopia social com sobriedade formal e ironia (nos tamanhos desproporcionais, no colorido das roupas das mulheres e no glamour de feira dos músicos).

Apesar destes destaques individualizados, todo o elenco aparece em grande nível, jogando sempre a favor do espectáculo: Sofia de Portugal compõe uma filha muito ambígua, entre a princesa e mulher trabalhadora; Cristóvão Campos, no Adido-que-não-pára-de-dançar é impecável; Rui Morrison (Juiz) e Francisco Pestana (Pastor) evocam o "Il Dottore" da commedia dell'arte; Carlos Malvarez e Cátia Ribeiro (e Carlos Pisco), com pequenos gestos que comentam a acção, fazem criados com tessitura; as raparigas de Kurgela (Sara Cipriano, Mafalda Luís de Castro e Patrícia André) sabem ser figuras divertidas e alegres, mas também sabem terminar a cena da festa de noivado em tensão realista. Em suma, um elenco que sabe pôr as suas competências específicas ao serviço do espectáculo, que é uma extraordinária forma de irmos pensando as razões e os porquês de um capitalismo que anda em crise.