Um quinto dos portugueses vivia em privação material em 2009

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Uma refeição de peixe ou de carne nos casos de pobreza é uma raridade FERNANDO VELUDO/

Números do Instituto Nacional de Estatística mostram que a pobreza ameaça sobretudo as famílias monoparentais e casais com três ou mais filhos

No ano passado, 21,4 por cento dos portugueses viviam em privação material, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE). Tradução prática: tinham dificuldade, por exemplo, em pagar as rendas sem atraso, manter a casa aquecida ou fazer uma refeição de carne ou de peixe pelo menos de dois em dois dias.

O pior é que aqueles números já estão desactualizados, segundo o padre Jardim Moreira, da Rede Europeia Antipobreza, e vão ficar ainda mais quando as medidas de austeridade inscritas no próximo Orçamento do Estado saírem do papel.

"O cenário vai agravar-se e muito. Aliás, já hoje falar de pobreza em termos de números é pura especulação", reagiu aquele responsável, para quem "o mais escandaloso é que a grande maioria dos pobres em Portugal são crianças". Igualmente grave, para Jardim Moreira, "é que 12 por cento dos pobres em Portugal são pessoas que trabalham mas que recebem muito pouco".

Voltando aos números que o INE divulgou ontem, verifica-se que a percentagem de portugueses a viver em privação material diminuiu de 22,2 por cento em 2004 para 21,4 por cento em 2009. As famílias compostas por um adulto e uma ou mais crianças e as famílias com dois adultos e pelo menos três crianças registavam as taxas de privação mais altas (46,8 e 47,5 por cento, respectivamente). Na prática, duplicam a taxa de privação material observada para o total da população.

As estimativas do INE mostram ainda que, no ano passado, 14,1 por cento dos indivíduos viviam em casas sobrelotadas - menos que os 15,3 por cento de 2004. Daqueles, 4,7 por cento vivam em casas que apresentavam um ou mais dos seguintes problemas: inexistência de duche ou sanita com autoclismo no interior do alojamento, tecto que deixa passar água, humidade nas paredes ou luz natural insuficiente num dia de sol.

No tocante ao risco de pobreza, a taxa diminuiu de 20,4 para 17,9 por cento, entre 2004 e 2008. O INE destaca aqui a população idosa, onde a diminuição foi de 8,9 pontos percentuais. "Foi uma redução meramente estatística, conseguida à custa do Complemento Solidário para Idosos", relativiza Jardim Moreira, para quem "não são 50 ou 100 euros mensais que tiram alguém da pobreza". Sem surpresas, a taxa de risco de pobreza é maior entre os casais com três ou mais crianças dependentes (42,8 por cento) e nas famílias monoparentais com pelo menos uma criança dependente (38,8 por cento).