Calor, secas, cheias. Bem-vindos à Idade Média

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Iluminuras do Livro de Horas do duque de Berry (c. 1410), um dos mais importantes documentos do género. Cada uma corresponde a um mês do ano (Fevereiro, Março e Junho, da esq. para a dta.). Para além de orações e textos bíblicos, os Livros de Horas incluem importantes informações sobre o ciclo das colheitas e o clima dr

Na Islândia, a agricultura estava por todo o lado. Na Gronelândia, os vikingschegaram a pontos hoje inacessíveis. Há muito que se sabe que a era medieval foi quente em parte da Terra. Mas hoje o aquecimento é maior e global, dizem os cientistas. Por Ricardo Garcia

Secas épicas, permanentes. Cheias brutais, sucessivas. Alterações profundas na agricultura, na floração das plantas, nas estações do ano. Populações deslocadas. Um retrato das alterações climáticas no final do século XXI? Não, bem-vindos à Idade Média. Entre 900 e 1300, aproximadamente, algumas regiões do globo foram tão ou mais quentes do que a Terra no século XX, quando o mundo acordou para o problema do aquecimento global.

A existência de um Período Quente Medieval é um dos principais argumentos dos que contestam a tese de que o aquecimento actual é uma realidade sem precedentes nos últimos mil anos e tem origem sobretudo humana. Se é verdade que foi tão ou mais quente há alguns séculos - muito antes do carvão e do petróleo -, então como dizer agora que a culpa é do ser humano e não da variabilidade natural do clima?

O climatologista Ricardo Trigo, do Centro de Geofísica da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, reconhece que se trata de uma questão importante. Mas não tem dúvidas. "Várias reconstruções mostram que aquele período teve, de facto, valores próximos dos do século XX. Mas não como os das últimas três décadas", afirma.

Ricardo Trigo foi um dos organizadores de um encontro científico, em Lisboa, no qual alguns dos maiores especialistas mundiais no passado climático da Terra puseram em dia o que se sabe hoje sobre o Período Quente Medieval. Sob um clima ameno de fim de Setembro, o tema foi discutido por um grupo selecto de cientistas, em mangas de camisa, escolhidos a dedo pela Faculdade de Ciências de Lisboa e pela agência norte-americana para os oceanos e a atmosfera (NOAA).

Palavra-chave

Há uma palavra-chave em torno da qual orbita o trabalho destes cientistas - "reconstrução". Para saber se o clima quente de hoje é inédito, é preciso conhecer como foi o do passado. Mas, a nível global, só há dados de termómetros para os últimos 150 anos. Daí que seja preciso "reconstruir" o passado climático, com base noutros tipos de fontes - uma tarefa susceptível a grandes incertezas.

Sem termómetros, tudo o que os cientistas têm à mão são indicadores climáticos indirectos (proxies, no jargão académico). Documentos históricos são um deles. Registos escritos, muitos feitos nos mosteiros, de colheitas, de observação do tempo, de catástrofes meteorológicas, de épocas de floração, ajudam a reconstituir o clima. O mesmo vale para imagens.

É na própria natureza, porém, que estão as maiores fontes. Amostras de gelo das regiões polares guardam testemunhos milenares sobre a precipitação, sobre a fusão periódica da cobertura gelada, sobre a composição da atmosfera. De corais do Pacífico também se extraem dados climáticos.

Há cientistas que se dedicam a avaliar o clima passado pelos tipos de pólen encontrados em diferentes camadas de solo. Outros analisam a composição de estalagmites nas cavernas, cuja formação pode estender-se por dezenas de milhares de anos. Sedimentos recolhidos em lagos também dão pistas sobre como foi o clima há séculos ou milénios.

De todos os indicadores indirectos, os anéis de crescimento das árvores são considerados um dos mais importantes. A sua largura e densidade indicam, ano a ano, se o clima foi mais quente ou mais frio, mais húmido ou mais seco. Combinando-se amostras de diferentes idades, é possível reconstituir as condições climáticas ao longo de milhares de anos.

Uma das vantagens dos anéis de árvores está no facto de haver amostras em vários pontos do planeta. "As árvores são provavelmente os proxies mais largamente distribuídos", afirma o climatologista Phil Jones, do Centro de Investigação Climática da Universidade de East Anglia. Além disso, somam-se já largas décadas de experiência com a dendroclimatologia - o nome desta técnica que nasceu na Escandinávia no final do século XIX. "É a mais conhecida ciência de proxies", diz Phil Jones.

O que todos estes indicadores indirectos sugerem é que na Idade Média as temperaturas estavam em alta, pelo menos nalguns pontos do planeta. E há muito tempo que se sabe disso. Em 1914, o cientista sueco Otto Pettersson descreveu como largas áreas da Islândia eram cultivadas no século X, antes de serem posteriormente cobertas de gelo. Na mesma altura, os vikings colonizaram a Gronelândia, chegando a pontos que o frio também tornaria depois inacessíveis.

Foi o climatologista britânico Hubert Lamb, porém, quem cunhou a designação Medieval Warm Period (Período Quente Medieval). Em 1965, Lamb publicou um artigo sugerindo que, pelo menos na Europa, o tempo foi particularmente quente entre 1000 e 1200, seguido de séculos de frio, entre 1500 e 1700. Lamb calculou que, entre esses dois períodos, a temperatura média na Inglaterra variou entre 1,2 e 1,4 graus Celsius - muito mais do que os 0,7 graus Celsius de diferença verificado no planeta ao longo do século XX. Anos mais tarde, o mesmo cientista estimou que, nalguns pontos, as temperaturas na Idade Média chegaram a ser 1,0 a 2,0 graus mais elevadas do que no princípio do século XX.

A maior parte das reconstruções feitas desde então corrobora a tese de um aquecimento durante a época medieval, pelo menos no Hemisfério Norte. Com base nesses resultados, o Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) conclui que o período mais quente dos últimos dois mil anos, antes do século XX, centra-se entre 950 e 1100.

Dizer se foi mais ou menos quente do que agora depende da escala de tempo a que se olha para o fenómeno. Analisando períodos de 100 anos, um estudo submetido à conferência de Lisboa conclui que o aquecimento na Idade Média foi tão uniforme como o do século XX. A uma escala menor, outro estudo sugere que, na Europa, o aquecimento nas primaveras e verões medievais foi mais heterogéneo, década a década, do que o de agora. E os picos de temperaturas extremas eram muito menos frequentes.

Secas de 200 anos

Temperaturas à parte, o Período Quente Medieval foi marcado por outras perturbações climáticas - como as "megassecas" que ocorreram no que hoje são os Estados Unidos. Duas delas foram praticamente simultâneas - uma no actual Nebrasca, que durou 38 anos (1276-1313), e outra, de 24 anos (1276-1299), no Colorado, que terá afastado populações nativas que ali viviam, da civilização anasazi. Na Califórnia, o cientista norte-americano Scott Stine encontrou, em resquícios de árvores submersas, evidências de secas ainda maiores, de até dois séculos de duração.

Longe dali, no Egipto, há registos de cheias avassaladoras, combinadas com crises de fome, entre os séculos IX e XV. O facto de as alterações climáticas nessa altura não se terem manifestado apenas na temperatura faz com que alguns cientistas prefiram designar àquele período como Anomalia Climática Medieval.

As evidências do aquecimento, em si, são mais fortes no Hemisfério Norte, sobretudo nas latitudes mais altas. Mas, quanto ao resto do mundo, o conhecimento é ainda modesto. Há poucos indicadores para as temperaturas passadas nos trópicos, em África, em grande parte dos oceanos. "Estamos longe de ter dados suficientes para qualquer estimativa significativa de um aquecimento medieval global", conclui o IPCC, no seu último relatório de avaliação da ciência climática, de 2007.

Mesmo os estudos que agora surgem são ainda muito pontuais. Um deles, liderado pelo investigador Jürg Luterbacher, da Universidade de Giessen, na Alemanha, produziu, pela primeira vez, uma reconstrução das temperaturas de parte do Hemisfério Sul - abaixo do paralelo 20ºS (mais ou menos de São Paulo para baixo). E concluiu que, naquela região, o clima entre 950 e 1350 era, em média, ainda mais quente do que o do século XX.

Segundo outros investigadores, nos trópicos, poderá ter ocorrido o contrário, um arrefecimento do clima, devido a uma tendência maior para o fenómeno La Niña, no qual a temperatura do Pacífico equatorial permanece mais baixa.

As incertezas são grandes, sobretudo pelo número reduzido de proxies além do Hemisfério Norte. "Temos de ser cautelosos ao interpretar esses resultados", afirma Luterbacher.

Phil Jones acredita que, para determinadas regiões do globo, tão cedo não será possível chegar a reconstruções fiáveis. "A incerteza vai diminuir no futuro, mas não será rápido", antecipa.

Manchas solares

Variações na actividade solar poderão explicar em parte o aquecimento da Idade Média. Mas sabe-se menos sobre estas flutuações naquele período do que nos séculos seguintes, para quando se generalizou a observação das manchas solares. A Pequena Idade do Gelo, que trouxe invernos rigorosos à Europa e à América do Norte entre 1400 e 1900, coincidiu parcialmente com um período de actividade solar excepcionalmente baixo, conhecido por Maunder Minimum (1645-1715).

Apesar das incertezas, os cientistas reconhecem avanços no conhecimento do Período Quente Medieval. "Há muito mais dados agora do que há dez anos", diz Ricardo Trigo. Foi há cerca de uma década que um grupo de investigadores produziu o célebre gráfico do hockey-stick - que mostra as temperaturas médias do Hemisfério Norte desde o ano 1000, mas com uma subida exponencial, sem precedentes, nas últimas décadas. Incluído num relatório do IPCC de 2001, o gráfico foi alvo de críticas, por alegadas falhas metodológicas.

Mas, segundo Ricardo Trigo, outras reconstruções climáticas desde então, mesmo levando em conta o aquecimento medieval, confirmaram aqueles resultados.