Franceses contra vida de "metro, trabalho, sepultura"

Os jovens participaram em grande número nas manifestações
MIGUEL MEDINA/(AFP
Foto
Os jovens participaram em grande número nas manifestações MIGUEL MEDINA/(AFP

Menos pessoas na rua do que em manifestações anteriores. Governo destaca "baixa", sindicatos encorajados. Terça há mais protestos

"Se mudam assim a idade da reforma, vão enterrar-nos vivos. Agora é "metro, boulot, caveau" [metro, trabalho, sepultura]." O protesto de Raoul Bourbot, de 56 anos, despedido da empresa de componentes automóveis Molex, registado pela AFP em Toulouse, mostra o sentimento dos que ontem saíram à rua em França, em luta contra a reforma do sistema de pensões: 850 mil, segundo o Ministério do Interior, muito perto de três milhões, segundo a CGT, principal central sindical.

Os números de adesão à quinta jornada de luta desde o início de Setembro contra o aumento da idade mínima de acesso à reforma dos 60 para os 62 anos e de adiamento da pensão completa dos 65 para os 67 foram inferiores aos da última terça-feira, mas considerados encorajadores pelos sindicatos.

Os 850 mil manifestantes da contabilidade do Governo são menos que os 899 mil que as autoridades reconheceram no protesto de 2 de Outubro, também um sábado, e os 1,2 milhões que admitiram na terça-feira passada. As centrais sindicais não coincidiram ontem na leitura dos números das 230 manifestações promovidas em dezenas de cidades e em que os jovens se incorporaram em grande número: a CGT anunciou quase três milhões de participantes, a CFDT ficou-se pelos 2,5 milhões. Ambas tinham reivindicado quase três milhões a 2 de Outubro e 3,5 milhões há cinco dias.

A tradicional disparidade nos números foi ontem mais evidente do que em ocasiões anteriores. Na maior concentração, em Paris, desfilaram 50 mil pessoas, segundo a polícia, 310 mil, de acordo com a CFDT. Em Marselha, houve 16.400 manifestantes ou 180 mil, conforme a fonte; em Bordéus 13.500 ou 130 mil; e em Toulouse 24 mil ou 125 mil.

Para o Governo - que viu na adesão de ontem uma "baixa significativa" relativamente às mobilizações anteriores -, o copo já vai meio vazio. Para os sindicatos, que tinham estabelecido como fasquia uma mobilização equivalente à de dia 2, está meio cheio. Porquê? No entender de Bernard Thibault, líder da CGT, o "movimento ancora-se e alarga-se". A opinião de Jean-Claude-Mailly, da Force Ouvrière, é de que as manifestações de ontem deixam prever "uma mobilização ainda mais forte" na próxima jornada de luta de greves e manifestações, marcada já para depois de amanhã, véspera da votação pelo Senado do projecto de reforma já adoptado pela Assembleia Nacional.

"Temos vários milhões de pessoas na rua, que nos apoiam e acreditam em nós", disse ontem, citado pela Reu- ters, o líder da CFDT, François Chérèque, em Paris. "O único bloqueio do país é o Governo." Para além das sucessivas manifestações, os sindicatos têm conseguido perturbar o estratégico sector dos transportes, particularmente os comboios, e quase fecharam a torneira do abastecimento de combustíveis.

A determinação parece bem viva entre os milhões que se têm mobilizado contra a impopular reforma do sistema de pensões, uma das principais bandeiras do Governo do Presidente Nicolas Sarkozy, que a considera indispensável para a sustentabilidade da Segurança Social. "É preciso ir até ao fim, permanecer firme e continuar com modos de acção diferentes", afirmou à AFP Daniel Daumières, de 54 anos, animador sócio-cultural, um dos manifestantes que se concentraram ontem em Bordéus.